Para onde foi a felicidade?

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Falo com imensas pessoas que me dizem: “Mas eu era tão feliz… Tão alegre e espontânea. Dizia tudo o que pensava, brincava e ria… Agora dou por mim a perceber que, a dada altura, comecei a deixar de ser assim, a deixar de me sentir alegre”. O que aconteceu? Para onde foi essa felicidade, essa alegria espontânea, essa pureza? Acho que a palavra é mesmo essa: a pureza, ou falta dela.

Porque digo isto? A pureza relaciona-se com inocência, ingenuidade. Normalmente o que acontece é a vida em si mesma, as relações, os desafios, as responsabilidades, as desilusões. O perceber que há muitas pessoas que são competitivas, invejosas, maldosas, intriguistas, que mentem e enganam. Então generalizamos, por termos tido algumas más experiências, o nosso cérebro regista: “não é seguro confiar”, “as pessoas são más, só querem o nosso mal”, e o nosso sistema de defesa entra em acção, para não mais nos magoarmos.

E é aí que entra a tal quebra, a tal linha que separa o antes e o depois, a alegria e a falta dela. A espontaneidade e a falta dela. A alegria precisa disso mesmo, de espontaneidade. A partir do momento em que não podemos ser naturais, ou espontâneos, cortamos uma parte de nós. Anulamos uma parte de nós, a tal parte pura, natural, inocente. Não quero aqui confundir inocente com ingenuidade. Ser ingénuo pode ser diferente de ser inocente. Podemos ser adultos e, contudo, sermos puros de coração, sentimentos e intenções. Não precisamos ser ingénuos porque temos a experiência, a consciência e a maturidade para percebermos o mundo lá fora, que não tínhamos em crianças.

Agora, o desafio é esse mesmo: em um mundo caótico, onde há injustiça e maldade, mantermo-nos puros e fiéis à nossa essência. “Como se faz isso?”, perguntam vocês. Recuperar das desilusões, erguer os ombros novamente, superar aquilo que foi dito e feito por outros que nos deixou para baixo, dizer “sim” à vida novamente, ir rebuscar a nossa veia marota, brincalhona, respondona se for preciso. Essa parte sua nunca deixou de existir, convide-a para brincar novamente, para fazer parte de quem é actualmente.

Sei que, ou percebo que, os efeitos da vida são cumulativos. As tais desilusões, o peso das várias responsabilidades que carregamos, principalmente quando temos a nossa casa e despesas. Mas é mesmo assim. Primeiro andamos iludidos, que o mundo é lindo e os outros existem para suprir as nossas necessidades, mas não é bem assim. Os outros representam desafios de crescimento. Sem esses desafios não deixaríamos de ser crianças a brincar à existência. Ao crescermos, ferimos e somos feridos. Faz parte. Os outros nem sempre vão agir como gostaríamos. Vamos deixar isso levar o melhor de nós ou vamos fazer com isso o melhor que podemos?

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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