A fuga para o espitirual

Num outro artigo falei do vicio em autoanálise como uma forma de fuga. A espiritualidade pode ser outra forma de fuga, quando nos tentamos refugiar no mundo dos anjos, meditamos com unicórnios, fadas e gnomos, fazemos terapias holísticas a todo o momento tentando saber o futuro, tentando perceber tudo, indo a vidas passadas para desbloquear o que está nesta. Não é fazendo reiki todos os dias ou fazendo tarôt terapêutico ou leituras de aura regulares que resolve o que tem dentro, garanto-lhe.

Quem me conhece sabe que sou apologista e apreciadora de terapias mais espirituais, tanto que encaminho clientes meus para esse tipo de terapias quando sinto que se justifica, e todos podemos fazer todas as terapias que quisermos desse tipo que certamente não teremos nada a perder, antes pelo contrário, mas cuidado para não se enredar demais nos planos espirituais. É no mundo que vive e que tem de viver, não nos planos superiores. Cuidado também com informações pouco factuais, intuitivas ou “espirituais”, pois muitas vezes os terapeutas holísticos ligam-se, sim, a outros planos, que nem sempre sabemos quais.

E, no fundo, porque precisa saber o que foi noutra vida ou porque precisa procurar oráculos ou uma “cura” feita por terceiros, deixando-o/a sem o recurso da própria cura? Digo sim a fazer reiki com regularidade – é das técnicas mais relaxantes que conheço -, uma leitura de aura por curiosidade, rituais xamânicos ou com medicinas da terra (com acompanhamento posterior, por favor), tarôt terapêutico para poder perceber os possíveis potenciais da sua vida, meditar diariamente como forma de relaxamento e expansão da consciência, mas façam terapia de ordem psicológica também.

As terapias holísticas entram dentro da categoria de terapias complementares por algum motivo. Também eu estive imersa em terapias holísticas e espirituais durante muitos anos, mas foi na psicologia, hipnose e constelações que, na verdade, me encontrei, no aqui e no agora, e pude olhar para o passado de um lugar de consciência, maturidade e sobriedade. Confesso que viajei muito em imaginação, em planos que até hoje não sei quais são, vi anjos e arcanjos, figuras mitológicas, falei com plantas e vi vidas passadas, mas isso não me levou a mim, pessoalmente, mais longe.

No sagrado feminino pude ver a ferida, mas também a separação entre homens e mulheres, e não vi a cura ali, só a ferida colectiva e mulheres a quererem elevar-se e dissociar-se dos homens, aparentemente pouco evoluídos ou pouco conscientes. Pude ver também, muitos homens bastante sensíveis e intuitivos, desde então, quando pude realmente ver e olhar, sem nunca terem feito terapia, e pessoas mais conscientes sem nunca terem ligado ao espiritual. Conheci também muitas pessoas “presas” no trabalho espiritual a sentirem-se superiores e mais despertas do que todos, num ego espiritualizado e auto proclamada superioridade moral, e também eu passei por lá.

Hoje posso ver com mais clareza do que quando lá andei, nesses meandros dos vários rituais, retiros e terapias. Se me serviram? Bastante. Hoje sou mais completa por causa de todas elas e tenho maior profundidade e conhecimento por tudo isso que vivi, aprendi e experienciei. Mas chega a uma altura que temos de abandonar os conhecimentos e visões de outros para mergulharmos no que é só nosso e só nosso pode ser: a nossa verdade, história, experiência interior, emoções e pensamentos. E nesse mundo está tudo, escusa de ir procurar fora. Se o pode fazer? Claro que sim, mas se quer superar traumas, feridas, fobias, lidar com emoções e aumentar a sua autoestima, há que ir dentro com uma sequência, regularidade, regra e ordem, e isso só é feito com terapia psicológica.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

2 thoughts on “A fuga para o espitirual

  1. Brutal! Diz exatamente o que penso sobre o assunto… não o saberia dizer de outra forma. Obrigada por essas partilhas!

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