A felicidade dá trabalho

Não adianta pedir à lua, às estrelas e aos cometas, ou quando sopra as velas do bolo de aniversário, o desejo mais profundo que todos nós temos: ser felizes. Porque o que é a felicidade, no fundo? É um sentimento, um estado, sensação de satisfação, de plenitude, de que tudo está nos sítios certos, e de que a vida vale a pena ser vivida. Mas não nos conseguimos sentir sempre assim, pois não? Essa é a grande dificuldade e desafio da felicidade. Porque, na verdade, não é possível estarmos felizes e satisfeitos sempre. Isso seria o estado fetal do bebé, de certa forma, que vive com todas as necessidades satisfeitas no útero, protegido e acolhido.

A felicidade, a meu ver, é como se fosse um espectro, tal como a tristeza. Ou seja, todos temos um espectro emocional, do mais cinzento ao mais colorido, e essa é a paleta com a qual vivemos. Como os dias, as estações, o tempo. Nem sempre chove, nem sempre faz sol, e é esse o equilíbrio. Quanto à felicidade, é uma escolha: como escolhemos viver, como escolhemos sentir e olhar as coisas e interpretar a realidade. Se vivemos constantemente na recriminação dos outros e de nós mesmos, na vitimização, no queixume constante, a repisar histórias e ressentimentos passados, não saímos da ferida, da dor, do desconforto e da desilusão.

Se, por outro lado, escolhermos ver o lado positivo, escolhermos a resolução dos nossos conflitos internos, a ressignificação dos acontecimentos passados, se mudarmos a forma de olhar e pensar, conseguimos sentir diferente, e aí a felicidade torna-se disponível e possível. A felicidade como um estado deve ser construída, através de escolhas, escolhas do que viver, como viver, o que manter na tela da sua mente e o que fazer com os seus pensamentos e emoções. E isso dá trabalho.

Dá trabalho ser presente, consistente e assertivo consigo mesmo/a. Dá trabalho destrinçar as causas da nossa infelicidade, de transformá-las e superá-las. Dá trabalho cuidar das nossas emoções como de crianças pequenas, manter um estado positivo, de podar os nossos pensamentos, dirigir a nossa atenção ao que queremos e ao que nos faz manter o equilíbrio. Dá trabalho admoestar a crítica constante, domar o perfeccionismo e a autoexigência, exercitar a flexibilidade mental, cuidar de nós mesmos/as, no fundo. Mas faz-se prioritário, senão estaremos constantemente num loop de insatisfação, ruminação e ausência de nós e de momento presente.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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