Todos queremos ser únicos e especiais

Essa é a ferida narcísica original: a necessidade de sermos únicos e especiais.

Todos nascemos como únicos e especiais, na verdade. Para as famílias, e para o mundo, pois não há duas pessoas iguais, como se costuma dizer. E é verdade. Todos somos únicos, essa é uma certeza. Especiais tem a ver com um sentimento, e esse sentimento só o temos, muitas vezes, quando estamos na barriga da mãe ou somos bebés. É uma deliciosa sensação sermos o centro do universo para alguém, e tudo girar à nossa volta. Esse é o começo do egocentrismo (ego-centro: eu como o centro de tudo).

Mas depois nascem os irmãos. Quando nascem, a atenção dos pais divide-se, e a criança sente desapontamento, raiva ou ciúmes, por vezes. Deixa de ser única, e pode deixar de se sentir especial por isso mesmo: deixa de ser o centro de tudo, para passar a ser outro ser mais pequenino. Mesmo quando não nascem outros irmãos, quando a criança começa a explorar o mundo, e a fazer “asneiras”, começa a sentir a desaprovação dos pais, e aí começa a frustração e a angústia, ou impotência, bem como a culpa infantil: “não faço nada bem”, “facilmente posso perder o afecto dos meus pais”, “se desobedecer eles vão deixar de gostar de mim”, “se deixarem de gostar de mim, deixo de existir – sou excluído/a”.

E esse é o maior medo da criança: deixar de ser único e especial aos olhos dos pais, pois isso implica a própria existência – pode simbolizar a morte. Temos de ver que isto são percepções infantis. Distorcidas, obviamente, mas as que a criança consegue criar com a inteligência, o nível de consciência e maturidade que tem na altura. O louco de tudo isto, é que vamos manter essas mesmas percepções na vida adulta, sem percebermos, e vamos contaminar todas as nossas relações futuras através desta lente infantil, que se mantém activa em nós sem darmos conta.

Então essa é, fundamentalmente, a base dos sentimentos de abandono e rejeição. Muitas vezes não reais, mas percepcionados como tal pela criança ao sentir a desaprovação dos pais, pelos ditos e pelos não ditos, expressões, linguagem corporal, e pelo que sente quando fez algo considerado como errado pelos pais. E carregamos isso connosco como uma ferida, a tal ferida narcísica, que se pode manifestar das mais diversas maneiras: aqueles que fogem do compromisso, por exemplo, e aqueles que correm para o compromisso como se uma boia de salvação se tratasse. Pode também manifestar-se como a dificuldade em receber uma critica, ouvir um “não”, ter baixa resistência à frustração, compensação com compras, comida ou outros artefactos, etc.

Como vêm, todos somos sujeitos a estas dinâmicas precoces, de certa forma. Como se trata isto? Indo bem fundo na ferida e acolhendo a nossa criança. Brevemente escreverei sobre esse assunto, como a receita para fora desta distorção e desta ilusão infantil. É possível a saída deste esquema, mas há que desenvolver o adulto consciente e amoroso em nós, que contém a criança de todas as formas possíveis. Fiquem atentos.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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