Carta ao medo

Querido Medo,

se que estás aí, que existes para me proteger e que fazes parte do meu sistema de defesa. Posso ver-te agora, não preciso mais temer-te. Sei que vens por bem, para me alertar dos perigos. Fazes parte do meu instinto de sobrevivência e sem ti arriscar-me-ia a muita coisa. Sei que quando passo a estrada, me alertas dos carros a passar. Sei quando o despertador toca, estás lá para me lembrar que tenho de me levantar senão posso perder o emprego, ou uma entrevista, um exame, ou outra coisa importante à qual tenho de comparecer. Sei também que tentas prever o futuro, ainda que eu saiba que não é possível, na tentativa de me alertares para todos os possíveis perigos e cenários, por isso mesmo, para que eu me possa preparar para qualquer coisa. Também sei que por vezes és excessivamente zeloso, e na tentativa de prever todos os cenários, envias a tua mensageira, a Ansiedade, para me ativar para que eu possa lutar ou fugir de qualquer coisa perigosa. Por isso por vezes também tenho excesso dela, de Ansiedade.

Mas hoje eu sei que há perigos reais – os carros na rua quando passo a estrada, o poder perder o trabalho por não me levantar a horas consecutivamente – e os perigos imaginários, que a minha mente projeta constantemente e que faz com que a Ansiedade se ative, tal e qual como se fosse real e estivesse a acontecer naquele momento o que estou a pensar, mas agora sei que não é assim, que a isso se chama “raciocínio emocional”: só porque o estou a sentir, acredito que é real (como sinto medo, valido os meus pensamentos como se eles de fato fossem reais e fossem acontecer, tal e qual como penso).

Então, como vês, Medo, aprendi umas coisitas sobre ti entretanto. Já não me deixo iludir. Já não faz sentido seres o piloto da minha vida e da minha mente, mas podes, com todo o gosto, ires no banco do passageiro, como co-piloto. Sim, podes alertar-me dos perigos, mas só quando eles estão à espreita e na iminência de acontecer. Quando não, ainda que me possas falar sobre eles, eu decido o que fazer com todos esses perigos, ou ameaças que identificas. Posso dizer-te “agora não, isso não é para agora, provavelmente nem acontecerá”, ou “sim, já sei disso, já me alertaste para isso e já tenho a solução/já está decidido o que fazer nessa situação”, ou então “sim, já me alertaste para isso, mas não tenho solução para isso e não há nada a fazer, por isso resolvido está”. E, simples assim, se fala contigo, agora sei.

Sei também que cresces muito quando não te dou ouvidos ou não quero ver o que lá está, pois é demasiado ameaçador para mim, como algumas memórias, situações passadas e emoções difíceis associadas. E lá vem a Ansiedade para me mostrar as ameaças que tanto tento esquecer-me ou com as quais acho que não consigo lidar. Quando não a oiço, a tento ignorar, distrair-me dela, ela continua lá, não desaparece. Quando levo anos a ignorá-la, ela fala ainda mais alto, ela grita, e aí tenho os Ataques de Pânico. Nesse momento, sei que mantive a Ansiedade demasiado tempo ativa em mim. Mas agora vejo o que preciso fazer: olhar, ver e reconhecer o que lá está. Ouvir as mensagens do meu corpo emocional e dar-lhes resposta. Essa resposta é apenas uma – acolhimento. Dar colo, compreensão e espaço para que essa emoção se possa expressar. E aí tudo fica bem dentro de mim.

Obrigada por todo o teu trabalho. Não teria chegado tão longe sem ti, mas também sei que me podes prender e limitar. Como tal, vamos arranjar uma nova forma de nos relacionarmos. Prometo ouvir-te e escutar a tua mensagem, e tu ficas a saber que eu, daqui para a frente, tomo conta do que surgir, ainda que contigo presente, pois somos uma equipa, tu e eu, e só assim poderemos ir longe. Não tenhas medo, Medo, eu tomo conta agora. Posso ver-te e ouvir-te claramente. Está registada a tua mensagem, farei o que for possível e o melhor em cada situação. E assim será.

Atenciosamente,

A tua pessoa.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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