Vazio de mãe

A falta de mãe pode surgir de várias maneiras, mesmo quando ela está presente. Pode sentir um vazio de mãe, ou colo, todos aqueles cuja mãe foi pouco afectuosa, pouco presente emocionalmente, ou que esteve muito ocupada com o trabalho ou com outros filhos, por exemplo. Pode sentir também um vazio de mãe todas aquelas pessoas que tiveram uma mãe crítica, autoritária, narcísica, que menosprezava ou gozava com as pequenas grandes coisas do filho ou da filha. Ou, por outro lado, uma mãe muito carente, dependente emocionalmente, ela própria com falta de colo, que, sem querer, usou o filho ou a filha como almofada emocional, como suporte e como confidente. Isto acontece também com mães que têm transtornos como a bipolaridade, a esquizofrenia ou a depressão profunda, por exemplo, quando os filhos têm de zelar pela medicação ou salvar de tentativas de suicídio.

No primeiro caso, mães pouco disponíveis emocionalmente, é apenas uma percepção distorcida da criança, afinal, a mãe sempre esteve lá, esteve sempre foi muito ocupada, com pouco tempo disponível, dando a sensação de que não estaria presente ou disponível para a criança, então a criança pensa: “a minha mãe não me ama/não sou amada pela minha mãe, visto que ela não tem tempo para mim/não me dá a atenção suficiente”. Mas a mãe esteve lá, garantia as necessidades de segurança, protecção, nutrição e cuidados que a criança precisava.

No segundo caso, mães críticas, são mães, por vezes, presentes de forma negativa, nunca valorizando os sucessos ou as conquistas, mas, antes pelo contrário, valorizando os erros, as falhas, as incapacidades, as limitações e enumerando ou apontado o dedo constantemente. Neste exemplo, as crianças aprendem a sentir-se umas falhadas, um fracasso e uma desilusão, com pensamentos como “eu não sou suficiente/nunca faço nada bem/não presto para nada/sou inútil/sou um fiasco”. Mais uma vez, é uma percepção distorcida, pois essa não é a verdade.

No terceiro caso, os filhos vêm-se sufocados com as necessidades emocionais das mães que precisam deles para se sentir bem, como se precisassem do conforto e do suporte dos filhos, mas isso é uma grande subversão dos lugares correctos entre filhos e pais: a mãe, neste caso, deve cuidar e não ser cuidada pelo filho/a. O filho ou a filha não pode, nem deve, ocupar o lugar de confidente, de amigo/a ou de muleta emocional.

Os filhos de mães dependentes emocionalmente, podem sentir-se sobcarregados, sufocados, com falta de espaço próprio para respirar, sem limites próprios, pois estes são transpostos pelas mães que querem uma relação fusional com os filhos. Isso faz com que, por vezes, os filhos tenham uma grande necessidade de se afastar e uma grande mágoa e raiva da mãe por eles próprios não terem tido a oportunidade de ser cuidados como deveriam.

As consequências deste tipo de situação são pensamentos como: “é perigoso ligarmo-nos a outra pessoa, posso perder o meu espaço pessoal e a minha individualidade/não é bom a conexão com outra pessoa, traz dor e sofrimento/não me posso vincular a alguém senão deixo de existir/não quero ser o suporte de mais ninguém, é muito pesado”. Mais uma vez, são percepções distorcidas, que não representam a realidade, mas como a criança a vivenciou.

Acerca das percepções distorcidas, elas são isso mesmo: lá porque percebemos as coisas de determinada maneira, não quer dizer que seja a verdade (sobre os outros ou sobre nós). Isto para dizer que, independentemente de como vivenciou a história com a sua mãe, essa relação não tem de ser o mote para todas as outras, ou seja, lá porque viveu essa experiência dessa forma, não quer dizer que seja um fracasso, ou que a ligação a outro ser humano tenha de ser sufocante ou que só porque alguém não está disponível queira dizer que não é suficiente para ser amado/a.

Tudo isto pode ser trabalhado. Há que fazer um trabalho com as crenças, com as percepções precoces, com a criança interior e com as emoções que lá ficaram. Tudo isto pode ser superado para que possam viver a sua vida, e as suas relações, da forma mais satisfatória possível.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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