A necessidade de estarmos sempre disponíveis

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Muitas vezes sentimos a necessidade de estarmos sempre disponíveis e corresponder às expectativas dos outros. Isso deriva da necessidade de aprovação constante bem como da compulsão por fazer e realizar, sendo úteis constantemente, o que nos leva à culpa pelo descanso, pelo lazer e pelo prazer.

Vivemos numa sociedade que nos educa para a atividade constante e pela correspondência ao que esperam de nós. Vemos o modelo escolar, que é a representação do modelo fabril, sendo as crianças pequenos autómatos aos quais se ensina a obedecer cegamente e a produzir resultados, na base da competição e da comparação. Em casa temos o modelo do “cuidado com o que os outros vão pensar” e “não faças o pai/mãe ficar triste”.

Esses dois modelos criam crianças extremamente complacentes e obedientes que, mesmo passando por fases de rebeldia, crescem para ser adultos inseguros com medo do que possam pensar deles e com medo de desaprovar, ainda que façam, por vezes, o contrário do que é esperado deles, numa tentativa de fugir a esse modelo e com uma voz interior que diz: “faças o que fizeres, nunca vais ser suficiente”.

Muitas pessoas evitam desagradar ou a desaprovação dos outros através do serem extremamente solícitas e disponíveis, sempre acudindo às necessidades e expectativas dos outros. O medo de base é a exclusão, e mais profundamente, da morte. Se o outro me desaprova, vai excluir-me. Ao excluir-me, deixo de pertencer. Se deixo de pertencer, morro – não há vida para além da exclusão. Como tal, exclusão = morte. Fazemos estes cálculos e estes raciocínios inconscientemente, pois o desejo de pertença é algo muito forte nas nossas células, se pensarem que, numa sociedade, se se exclui alguém, essa pessoa é renegada, segregada, separada dos restantes. E essa é a morte social.

Não há maior dor do que a dor da exclusão, pois também ela é uma perda: perda de pertença. Inclusão é o que todos profundamente buscamos. Que nos aceitem incondicionalmente, que nos vejam e reconheçam exatamente como somos. Mas isso nem sempre é possível, não é? Isto porque os outros só nos vêm de acordo com as suas necessidades: o eu precisa sempre algo do outro.

Se há quem deseje profundamente agradar, há sempre quem deseje profundamente ser cuidado. No fundo, todos queremos ser cuidados, mas há aqueles que pedem por isso, e aqueles que sentem que não têm direito ao cuidado, e, como tal, cuidam constantemente do outro. Então estabelecem-se aqui relações de autêntica simbiose e, por vezes, de dependência, a tal codependência emocional, que escrevi num post acerca do dia de S. Valentim.

Será então possível mudarmos estes padrões de funcionamento? Claro que sim, com trabalho e consciência de que nos podemos arrogar o direito de ser cuidados também, de termos direito ao descanso, de não termos de corresponder constantemente ao que o outro quer, que não precisamos da aprovação constante porque mesmo se não a tivermos, isso não implica a morte. São tudo perceções distorcidas da realidade, que vêm da nossa infância. Tudo isso se trabalha e se ultrapassa e transforma.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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