Não existe parentalidade perfeita

Não, não há parentalidade perfeita, lamento informar. Há sim parentalidade consciente, ou inconsciente. O que isto quer dizer? Que pode educar conscientemente ou inconscientemente, e nunca será perfeito. Haverá sempre variáveis e fatores que não consegue controlar, ou que irá controlar de forma ineficaz ou menos que ideal, seja por desconhecimento, seja por estar no limite e reagir a uma situação de forma impulsiva, seja por inexperiência, seja por falta ou excesso de autoridade.

Pode educar de forma inconsciente quando repete padrões educacionais dos seus pais, que não são os mais indicados ou favoráveis para o melhor desenvolvimento psicoemocional dos seus filhos, como por exemplo, educar pela violência, agressividade ou a autoridade do medo: “Se erras, levas”, ou mesmo educando sem diálogo e sem negociação: “Tens de fazer como eu digo e ponto final”. Educar conscientemente é poder selecionar as melhores respostas e os melhores comportamentos, adequando-os às necessidades de cada momento e cada situação, questionando-se qual o impacto do seu comportamento no comportamento do seu filho.

Educar crianças pode ser a tarefa mais desafiante que existe, pois as próprias crianças estão constantemente a desafiar a autoridade e os limites, e como reagir a isso nem sempre parece óbvio. Paciência, tolerância, negociação, consciência e presença serão as características a ter em conta no desenvolvimento do seu filho, bem como a comunicação assertiva e fazer o que se diz (coerência). De nada serve gritar e ameaçar que faz isto e aquilo se depois não cumpre. Ganha com isso a desconsideração do seu filho, que vai ignorar as suas ameaças como se de uma brincadeira se tratasse.

Educar inconscientemente é querer um filho obediente, que não contesta a autoridade, que não tem o direito de expressar dúvida, frustração ou insatisfação. O resultado disso é que, mais tarde, o filho ou a filha poderá não o considerar como confidente, ou não será a primeira pessoa a quem recorrerá se precisar de alguma coisa, pois a hierarquia é demasiado inflexível para os filhos se sentirem próximos dos pais.

Pelo contrário, se falar com o seu filho como fala com um igual (como outro ser humano, independente da idade ou maturidade), se permitir o diálogo, se usar a negociação para implementar regras e limites (há sempre regras e limites que não são questionáveis ou debatíveis) e incentivar o seu filho a expressar os seus pensamentos e sentimentos, criará um filho ou filha muito mais autoconfiante e muito mais confiante para se dirigir a autoridades, neste caso aos próprios pais. Esta é a educação pelo respeito, e não pelo medo.

Contudo, mesmo educando conscientemente, não está a salvo de cometer erros e de fazer coisas que se pode arrepender mais tarde. Mas também não pode pressupor que a criança seja demasiado frágil para aguentar determinadas frustrações e acontecimentos. Não se pode educar sem frustração, sem regras e sem limites. Nem sempre as crianças vão gostar deles, considerando que a criança vive pelo princípio do prazer e quer fazer tudo o que lhe apetece. Cabe então ao pai e à mãe frustrarem esses desejos e expetativas, como tal, vão ser sempre os maus da fita. Mas faz parte. Para construir caráteres fortes, é preciso uma boa dose de negação e frustração.

Da mesma forma, não se pode proteger as crianças dos legados emocionais e comportamentais que são recebidos pelo simples facto de pertencer a determinada família, bem como a vulnerabilidade genética para alguma questão de saúde física ou mental. Uma mãe deprimida ou ansiosa, por exemplo, pode hoje experienciar a culpa por poder estar a prejudicar a criança de alguma maneira, seja na gravidez, seja mais tarde, por sentir que poderá estar a “passar” essas questões emocionais à criança. Digo hoje porque dantes não havia esse conhecimento, de que as emoções que a mãe sente podem também pertencer ao bebé e à criança. E sim, também isso faz parte desse legado que falo. Nenhum de nós esteve a salvo dos aspetos emocionais da nossa família, e nós somos sempre influenciados pelo meio em que vivemos.

Como não há meios perfeitos, também não há pais e mães perfeitos, como tal, a educação não é perfeita nem os filhos o podem ser. Por isso não se preocupe tanto, faça o que melhor sabe, não seja tão exigente consigo ou com o seu filho ou filha, consulte especialistas caso tenha dúvidas e queira saber mais, leia livros, veja entrevistas, oiça podcasts, questione-se, e vai ver que construirá uma boa relação com o seu filho ou filha. Isso sim, determinará uma parentalidade o mais satisfatória possível. Perfeitamente imperfeita, como tem de ser.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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