Tipos de comportamento abusivo nas relações

Fiz um glossário com termos que têm surgido nos últimos anos para classificar tipos de comportamentos abusivos nas relações, que podem acontecer tanto a homens como a mulheres, não só nas relações íntimas como nas relações de amizade e no local de trabalho entre colegas ou mesmo com chefias. Pode acontecer tanto pessoalmente como através das redes sociais.

Esses comportamentos são formas de abuso emocional, que normalmente são usados por pessoas manipuladoras, muitas vezes com um perfil narcísico, ou sociopatas. É muito comum na cultura atual de namoro e encontros através de aplicações online e das redes sociais, o que torna tudo muito mais fácil.

Estes comportamentos estão associados a pessoas que têm medo do compromisso e da intimidade, evitando-o, devido a um padrão de vinculação insegura ou ambivalente. É uma forma de defesa relativamente à vinculação que o compromisso acarreta, não conseguindo lidar com a deceção que possam causar na outra pessoa, ou a responsabilidade que um relacionamento requer, não querendo também ser desmascarados/as nas suas fraquezas e vulnerabilidades. Estas pessoas quando são questionadas ou confrontadas, ou atacam, fazendo a outra pessoa sentir-se culpada, ou desaparecem.

As vítimas destes comportamentos ficam muitas vezes confusas, sem perceber o que aconteceu e sem saber o que pensar, achando que a culpa possa ser sua, sem perceber o que fizeram de errado para que a outra pessoa se comportasse assim. Pessoas com baixa autoestima, muito empáticas e com personalidade dependente são as vítimas perfeitas deste tipo de comportamentos, pois são “alvos fáceis”. Não só estão disponíveis, como estão sedentas de amor e atenção, bem como do interesse destas pessoas, altamente envolventes, sedutoras e carismáticas, por norma.

Então cá vai um dicionário desses comportamentos abusivos. Provavelmente aí desse lado já esteve numa relação com alguém assim:

“Ghosting” – quando alguém aparentemente muito interessado/a de repente desaparece sem deixar rasto, deixando de falar com a vítima e deixando de responder completamente a qualquer forma de contato, sem qualquer explicação, como se de um fantasma se tratasse. Isso deixa a vítima muito angustiada sem saber o que se passou e o que aconteceu para despoletar essa mudança drástica no comportamento da pessoa desejada.

“Gaslighting” – este é um comportamento muito grave usado por alguém que quer confundir a vítima e fazê-la pensar que ela é que está errada, ou mesmo “louca”, desacreditando-a e levando-a a duvidar dela mesma. Este é um comportamento patológico que faz com que a vítima comece a acreditar que o que pensa e o que sente se calhar não é verdade, e talvez a outra pessoa esteja certa sobre ela, mesmo não estando. Esta é uma das piores formas de comportamento abusivo, levando a vítima a ficar completamente sem autoestima, acreditando que a única verdade é aquela que o/a agressor/a lhe diz. Há alguns filmes que retratam esta realidade, principalmente o filme “Antes de adormecer” (“Before I go to sleep”, com a Nicole Kidman), ou “Dormindo com o inimigo” e “A rapariga no comboio”, bem como a série “You”.

“Submarining” – isto acontece quando a pessoa desejada aparece e investe, mostrando interesse, para, sem qualquer motivo aparente e também sem qualquer tipo de explicação ou justificativa, desaparece durante uns tempos, sem dar resposta ou dizer o que quer que seja, para voltar a aparecer tempos depois, como se nada fosse. Isto deixa a vítima muito confusa, sem respostas e sem perceber qual o motivo pelo qual a outra pessoa desaparece. Normalmente a pessoa que desaparece, dá desculpas como “Oh não é nada disso que estás a pensar, estive ocupado/a ou tenho estado a trabalhar, não tenho tido tempo para falar contigo”, etc., desvalorizando completamente o seu comportamento errático.

“Orbiting” – este é um termo usado quando a pessoa com quem a vítima saiu umas vezes ou namorou deixa de falar com ela na vida real mas continua a segui-la nas redes sociais, fazendo gosto e vendo as histórias que publica.

“Lovebombing” – esta é outra forma de comportamento abusivo, muito comum entre os narcísicos e sociopatas, em que demonstram muito interesse em relação à vítima, enchendo-a de mimos, declarações, gestos românticos, fazendo e dizendo tudo o que é desejável de ouvir e sentir, tal e qual como se vê nos filmes românticos. A vítima fica completamente deslumbrada por tamanha atenção, dedicação e interesse, em que a pessoa desejada a faz acreditar que veio para ficar e satisfazer todas as suas necessidades de afeto, estima e relacionamento. O que acontece é que este comportamento é tido para mascarar uma profunda necessidade de poder e controlo sob a vítima, muitas vezes levando-a a isolar-se dos amigos e família, vivendo só para o agressor. Nesse ponto, acabando a fase “lua-de-mel”, em que o/a agressor/a sente que conquistou a vítima, pode tornar-se ciumento, possessivo e violento, tornando-se paralelamente também menos disponível e completamente desinteressado, culpando a vítima de qualquer coisa que está menos bem na relação e nunca assumindo responsabilidade pelo seu comportamento.

“Benching” – esta palavra quer dizer “deixar no banco”, como os jogadores suplentes num jogo de futebol. Neste caso, a pessoa desejada gosta de manter as suas opções em aberto, falando com várias pessoas em simultâneo, na ideia de que algo melhor pode aparecer e também para evitar sentir-se sozinho/a. Então, não se compromete verdadeiramente com a vítima, deixando-a em standby constantemente. Sempre que a vítima se afasta, a pessoa desejada volta a aparecer para mantê-la interessada.

“Breadcrumbing” – como o próprio nome indica, é “deixar migalhas” nas redes sociais, com mensagens provocatórias, demonstrando interesse, num jogo de sedução e de conquista perante a vítima mas sem qualquer intenção de relacionar-se com, ou sem interesse real na vítima. É o gosto pelo jogo de sedução em si, em que a pessoa desejada gosta de se sentir assim mesmo: como um objeto desejado. Estas pessoas muitas vezes já têm um relacionamento e não têm qualquer intenção de um compromisso ou algo sério com a vítima, evitando qualquer forma de contacto na vida real, apesar de poderem aliciar a vítima para isso e inclusivamente combinar um encontro, faltando ao compromisso usando desculpas para manter a vítima interessada. O programa “Catfish” aborda este tipo de relacionamento abusivo.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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