A raiva ao serviço da dor

O que é a raiva? A raiva é uma emoção, ou sentimento, que experienciamos quando alguém nos magoou muito, quando nos sentimos enganados, atraiçoados, quando alguém faz algo que não gostamos, não esperamos, ou que nos desrespeita de alguma forma. Sentir raiva cronicamente é tóxico, debilita o nosso sistema de defesa e impede-nos de sentir coisas melhores e mais bonitas, pois ela ocupa um lugar importante no nosso coração: a defesa à dor.

Há pessoas que detestam perder, extremamente orgulhosas, que ficam ressentidas facilmente e que se recusam a perdoar outros que as feriram, ou até a si mesmas por algum comportamento que desaprovam; pessoas que se recusam a sentir dor, ou tristeza, e que, ao invés, preferem ficar com a raiva. Quem fica com raiva muito tempo, normalmente, está em estado de negação, ou resistência à mudança – está apegada à dor e ao passado, mantendo o outro refém de uma culpa: culpa por ter traído ou errado.

Mas manter o outro refém da culpa que lhe atribui só não lhe faz bem a si, garanto-lhe. Ficarmos ressentidos só nos seca por dentro, e nos torna amargurados. O outro continua a sua vida e você fica sozinho/a com o rancor. Saber perdoar o outro, ou deixar ir o que foi, é um acto de humildade e libertação. É deixar ir o ego ferido e um discurso como “mas ele ou ela fez isto ou aquilo e não deveria ter feito/ ele ou ela errou/fez-me mal/enganou-me”, etc. E depois? Quanto tempo mais vai ficar a repetir essa história e esses pensamentos?

O outro faz o que acha melhor para si, e age da forma que sabe e consegue, seja ou não o mais correto para nós. Ninguém tem o dever de ser como nós gostaríamos que fosse, nem ninguém tem de fazer o que nós gostaríamos ou desejamos. Cabe-nos a nós lidar com a frustração e a mágoa, ainda que o que outro tenha feito seja errado, ou pouco aceitável. Somos tão livres quanto a outra pessoa, e também nós podemos decidir o que fazer com o que nos acontece e com o que nos fazem ou deixam de fazer.

Então a raiva, muitas vezes, serve como escape para a dor, a mágoa ou a tristeza. Serve como escudo para evitarmos sofrer e ficar a braços com toda a dor de uma desilusão. A forma de sair da raiva é resolver aceitar o que aconteceu como parte da sua história e liberdade pessoal do outro. Não é esquecer nem achar que está correto ou concordar com o que se passou, mas deixar ir o acontecimento (deixando de o repetir constantemente na sua mente) e deixá-lo onde ele pertence: no passado. Guardá-lo como memória factual em vez de estar constantemente a retraumatizar-se com o sucedido, trazendo essa história ao presente. Sim, implica sentir dor, até que não haja mais dor para sentir e possa ocupar esse lugar com outros sentimentos, como o amor, a alegria e a satisfação.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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