A boa mãe

Independentemente da mãe que nos foi possível ter, com as suas faltas e excessos, com o que foi a nossa experiência com essa mãe, desde a vida intrauterina, há em nós a possibilidade de sermos bons pais ou boas mães de nós mesmos/as. O que quero dizer com isto? Que todos nós, sem excepção, enfrentámos traumas precoces, e todos temos feridas narcísicas, feridas que ocorrem na nossa infância, pelo simples facto de que, na altura, não tínhamos a capacidade de racionalização que temos hoje, enquanto adultos.

Como tal, muita das nossas percepções sobre o mundo, sobre os outros, sobre nós mesmos/as, sobre o sucesso, o dinheiro e os relacionamentos, são, muitas vezes distorcidas. Distorcidas porque são fruto de opiniões e projecções das pessoas que nos rodearam quando éramos pequenos e extremamente influenciáveis pelo meio, pelo que ouvíamos e pelo que nos diziam.

Crescemos com opiniões, ideias, sistemas de crenças da nossa família e dos adultos significativos, então fomos sendo programados inconscientemente com esses sistemas de crenças, como se fosse um pacote de dados que herdamos e vamos adquirindo ao pertencermos a determinada família, meio, época e cultura. Esses sistemas de crenças englobam a forma como olhamos o mundo, como vemos os outros e nos vemos a nós. Isso envolve uma série de ideias preconcebidas, adjectivos e julgamentos sobre o que é desejável ou não, bom ou mau.

Ao crescermos, projectamos essa mesma realidade, filtrando o mundo e as nossas experiências pela lente do que aprendemos e pelo que foi a programação inconsciente que recebemos. Dizem que 90% do nosso comportamento é motivado por factores inconscientes, tanto que agimos quase automaticamente, sem pensar muito na qualidade do nosso comportamento. Simplesmente nos comportamos de determinada maneira nas várias interacções que temos com o mundo e com os outros. Essa forma de agir é tão automática quanto o nosso processo de pensamento. Tanto que nos questionamos sobre de onde vêm os nossos pensamentos automáticos negativos – exactamente daí, desses 90% que corresponde à nossa programação inconsciente.

Isto tudo para dizer que, muitas das vezes, o que escolhemos, como reagimos, como pensamos – no que acreditamos – vem de tudo da infância. Até o que sentimos, como sentimos e quando sentimos. Os sentimentos de frustração, de abandono, rejeição, perda, confusão, ou tristeza, podem vir exactamente da nossa mãe, ou da nossa criança que, de certa forma, tomou para si esses sentimentos como seus, por não saber dissociar ou destrinçar o que era seu e o que era da mãe. Sermos bons pais de nós mesmos/as, ou a boa mãe, implica cuidar das feridas e percpções distorcidas da nossa criança interior e dar-lhe o que ela sentiu que faltou.

Neste caso, acolher as dores e as mágoas da nossa criança, independentemente do que aconteceu de facto. Porque uma coisa foi o que a criança sentiu, outra completamente diferente foi o que pode ter acontecido. Como o exemplo da criança ser deixada na creche com 4 meses, por exemplo, e ter sentido o abandono. Neste caso o abandono foi imaginário e não real. Ou no caso da mãe que não queria engravidar dando lugar a um sentimento de rejeição no feto, ou cuja mãe teve depressão durante a gravidez ou pós parto e a criança tomou essa tristeza para si. Enquanto adultos levamos esses sentimentos dentro, sem sabermos muito bem de onde vêm.

O lugar de boa mãe em nós, então, é a mãe que sempre acolhe, conforta, que é compreensiva, amorosa, benevolente e tolerante. A mãe que fica, apesar de tudo, e que está completamente disponível para as necessidades da criança. A mãe que trata das suas questões, sem implicar as necessidades da criança. A mãe que fica com o que é seu, e liberta a criança das coisas dos adultos. Uma mãe que se assume com inteireza nos seus relacionamentos, enquanto adulta e com os sentimentos da adulta, e não da criança ferida lá de trás. Um trabalho fundamental.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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