A objetificação que os pais, por vezes, fazem dos filhos

Muitas vezes os pais, sem se aperceberem, querem que os seus filhos sejam uma extensão dos seus desejos, dos seus ideais, e da fantasia do que é ter um ou uma “mini me“. Como quem diz, querem um filho ou filha que corresponda às suas expectativas do que é ter um filho ou uma filha perfeita, vestindo as filhas com roupas como se de bonecas de porcelana se tratassem, mesmo quando as meninas não gostam dessas roupas, tornando-se muito desconfortável para as crianças que, neste caso, sentem a desaprovação e a rejeição da sua verdadeira essência. Há meninas que adoram vestir-se de princesas, com saias ou vestidos, mas outras que não. Pelo contrário, há mães que gostariam de vestir as suas filhas com roupa prática, uns chinelos e umas leggings no verão, por exemplo, e essas meninas em concreto querem vestir-se com roupinhas muito femininas.

Por outro lado, o mesmo pode acontecer com os meninos. Há os mais “vaidosos”, e os que querem mesmo é andar descalços e pular nas poças de lama e rebolar na relva, sem se importarem com a etiqueta. Isto faz arrepiar os cabelos dos pais, que querem as crianças imaculadas sempre, com as roupas sempre impecáveis. Não nos esqueçamos que a infância é para brincar, cair, sujar-se, fazer asneiras. Não se pode querer que os filhos sejam mini adultos, e que se comportem como tal, sem meterem nódoas, sem rasgar a roupa e sem joelhos raspados.

Depois disto, há as repreensões e críticas: “Este moço não tem cuidado nenhum! Suja-se todo sempre!”, “Esta miúda não é nada feminina! Quer é vestir-se como um rapaz e trepar às árvores! Não se comporta nada como uma menina!”, “Oh filha, ficas bonita é com um vestido, não é com umas leggings, usa lá os sapatos que a mãe gosta…”, etc. E, já sabem, tudo isto tem um impacto. O que a criança apreende é: não és suficiente (como tu és não é bom, devias ser diferente); se não fazes o que a mãe e o pai quer, ficamos desapontados. E nenhuma criança gosta da desaprovação do pai ou da mãe. Crescem a sentir que têm de ser uma coisa que não são, ou que não é natural para a criança, e que tem de se comportar de uma determinada forma, senão é rejeitada.

A pior coisa para a criança é mesmo o sentimento de rejeição. Sempre que é desaprovada ou criticada, na psique da criança o que fica registado é que não gostam dela como ela é, e que tem de ser diferente para os pais aprovarem, e o pior medo da criança é a exclusão. Como quem diz: se não gostam do que faço, se ficam tristes ou zangados com o que faço, deixam de gostar de mim. E das duas uma: ou obedeço ou rebelo-me. A criança pode inclusivamente deprimir, quando escolhe a obediência. Como não pode sentir raiva da mãe ou do pai, deprime. A rebeldia vem, muitas vezes, na adolescência, em que o adolescente parece fazer tudo ao contrário do que ou pai ou a mãe gostariam. É uma forma de dizer: “Agora é ao meu jeito”.

E nisto, as relações entre pais e filhos ficam severamente prejudicadas e feridas. Cabe aos pais terem muita atenção com a exigência e com as expectativas dirigidas aos filhos. Não pode esperar que o seu filho ou a sua filha seja exatamente como gostaria, em termos de aspeto, ideologias, orientação sexual, estilo de vestir, religião, resultados escolares, profissão, etc. Isso não é possível, ou então exige muito da criança e do adolescente, que vai ficar com uma grande ferida de rejeição, achando que o que é, como é, não é suficiente para que goste dele ou dela. E ou o/a tentará agradar a todo o custo, ou então irá sentir uma grande raiva de si, raiva essa que lhe irá causar problemas na vida, seja em termos de relacionamento, peso, ou outros.

Se cada um fosse aceite tal e qual como é, da forma que é, com todas as suas particularidades e peculiaridades, seríamos todos muito mais felizes e realizados. Se sente que tem muitas expetativas para os seus filhos, modere ao menos na forma como as mostra e tente gerir isso internamente. Se acha que não consegue, ou que não tem a certeza se o faz ou não, mas que o seu filho ou filha mostram revolta em relação a si, tente ir mais fundo e fazer um trabalho terapêutico consigo e ver onde poderá estar a causa dessa situação. Independentemente se isto acontece ou não, parentalidade consciente faz-se necessário, sempre.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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