A vida doméstica mata o amor

Substitui-se o entusiasmo do namoro pela avareza da rotina. Em vez de se discutir onde se vai jantar ou passear, ou onde vão ser as próximas férias, discute-se quem deixou ou não o copo por lavar no lava loiças, quem deveria ter apanhado a roupa e não apanhou, que aquela blusa não pode ficar ali ou que a pasta de dentes tem de ser espremida de uma determinada maneira. Substitui-se o profundo olhar nos olhos, seguido de um longo abraço e um “como estás” sentido, pelo rápido olhar, o chocho da praxe e uma pergunta relativa a qualquer assunto prático como “vê lá ai se as batatas já estão cozidas”, não deixando de fazer o que se está a fazer quando a cara metade chega a casa.

Reparem no significado de “chocho”:

cho·cho |ô|

(latim fluxus, -a, -um, que corre, fluido, frouxo)
adjectivo

1. Seco e engelhado.

2. Sem miolo.

3. Que não está fecundado. = GORO

4. [Informal]  Com pouca energia ou ânimo. = ALQUEBRADO, DÉBIL, LASSO ≠ DINÂMICO, ENÉRGICO, FORTE, VIGOROSO

5. [Informal]  Que tem pouco valor ou pouco interesse. = FÚTIL, INSIGNIFICANTE, OCO, TOLO

6. [Informal]  Que tem as faculdades mentais debilitadas.

7. [Informal]  Que é fraco ou não convence.nome masculino

8. [Portugal, Informal]  Beijo rápido e geralmente sonoro. = BEIJOCA

9. [Portugal: Trás-os-Montes]  Tremoço.

Nestes meandros, o casal perde-se, para dar lugar a uma parceria mal ou bem oleada. O “tu” e o “eu” tornam-se ilhas à deriva, soltando-se do “nós” conquistado na doçura do namoro. Nem sempre acontece assim. Há raros casais que preservam características como a pureza, a gentileza, a generosidade e a bondade (há um estudo que fala nisto, nas duas características que os casais de longo prazo mantêm), falando um com o outro sempre com delicadeza e respeito, importando-se como o outro sente e tendo sempre um carinho e um incentivo para dar, sabendo comunicar e ouvir sem crítica ou julgamento, gostando de surpreender e presentear o outro, sem nenhum motivo em especial.

De certeza que já viram aqueles velhinhos queridos, sempre de mão dada, cheios de carinhos um para o outro, e falando um com o outro “amorzinho” para aqui “amorzinho” para lá, fazendo brincadeiras e rindo-se um do outro. Isso sim é um posto, e raro de encontrar. Todos queremos isso mas nem todos conseguimos ser isso. Ter essa candura e delicadeza com a nossa outra metade. Se todos pudéssemos ser vulneráveis e não houvesse tanta resistência à sensibilidade e delicadeza, pureza e inocência, talvez todos conseguíssemos esse tipo de relação. O que se passa é que os modelos que observámos não são assim.

Talvez aí desse lado não tenha exemplos destes à sua volta. Talvez só os tenha visto em filmes e, por isso mesmo, ache que é fictício e não são reais essas histórias. Afinal, descendemos de histórias cheias de dor e agressividade, dureza nas palavras e nos afetos. Talvez sejamos poucos com exemplos bons do que é ser um casal bonito na sua forma de ser, pois todos temos também as nossas idiossincrasias, e todos estamos escondidos detrás de pesadas máscaras feitas de ferro e ferrugem, que impedem que os outros nos vejam na nossa autenticidade e fragilidade. Mas, como em quase tudo, há salvação. Há que treinar essa forma de ser e tratar o outro, mostrando-nos na nossa inteireza, pedido o que precisamos e dando o que for possível dar, sem reservas e sem cobranças.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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