Quando as mães são excessivamente zelosas

As chamadas mães “galinha”, que estão sempre preocupadas com a segurança e o bem-estar dos filhos, mas que o fazem às custas de cuidados desmesurados e atenção rigorosa, valendo-se de uma hipervigilância a sinais de perigo, são também mães ansiosas que têm medo da perda e medo da morte: medo de perder o/a filho/a, medo que o/a filho/a morra. São mães que vivem em constante medo que aconteça alguma coisa aos seus filhos, e na necessidade de controlarem todos os aspetos possíveis que possam levar à perda/morte, levam a vida a tentar antever as necessidades e carências dos seus filhos, mesmo quando estes são adultos. Normalmente são o tipo de mães que educam crianças inseguras e dependentes. Sem se aperceberem, criam essa dependência nos filhos para que eles não se arrisquem demasiado.

Isto pode acontecer tanto às mães como aos pais também, ou até a ambos (mãe e pai). Quando assim é, educam os filhos para serem medrosos, excessivamente cuidadosos até, com medo da vida e medo das consequências de crescer. Isso pode implicar medo do sucesso e medo da independência financeira em filhos adultos, quando não trabalhados estes medos. Nestes casos, pode dar-se o caso de filhos que têm dificuldade em arriscar e em seguir os seus sonhos, ficando muitas vezes na dependência dos pais até tarde, ou só fazendo o que é seguro, não ousando mudar de rumo, ainda assim não desapontem os pais.

Normalmente quando os filhos são crianças, este tipo de mães levam a vida a ensinar todos os perigos aos seus filhos, a enumerarem as possíveis consequências de várias situações e a palavra mais usada é o “cuidado com”: cuidado com os outros, cuidado com o cão, cuidado para não caíres, cuidado não te cortes, cuidado não tropeces. Cuidado com tudo o que possa ser perigoso. E isto faz parte de uma educação saudável, desde que haja também uma permissão do filho ou da filha poder ter espaço para errar, cair e crescer. O que acontece é que este tipo de mães preferiria colocar os seus filhos numa redoma de cristal para que eles fiquem para sempre seguros, tendo um desejo secreto que eles nunca cresçam, vivendo o crescimento e a independência dos filhos com uma grande angústia.

Esta educação ansiogénica está baseada nas melhores intenções, pensa este tipo de mães. Contudo, o que está por detrás dessas boas intenções é um gigante medo de que aconteça alguma coisa ao filho ou à filha. No fundo, essas mães, sem se aperceberem disso, estão a educar pelo medo para poderem conter a sua ansiedade de perda. E isso tem consequências para os seus filhos, que aprendem muito bem a mascarar, a disfarçar e até ocultar coisas dessas mães, para não terem mais preocupações e necessidade de controlo por parte das mães, que, nestes casos, se podem até tornar sufocantes para os filhos.

Como tal, estas mães, têm imenso medo dos filhos crescerem, pois isso implica os filhos saírem do ninho e voarem para longe. Dessa forma deixam de poder controlar o que se passa, se o/a filho/a come o suficiente, ganha o suficiente ou se se cuida o suficiente. São o tipo de mães que quando ligam aos filhos se sente sempre uma ansiedade por detrás das suas perguntas: “Andas a alimentar-te direito?”, “Tens tido trabalho?”, “Têm-te pago a horas?”, “Tens descansado?”, “Já chegaste a casa?”, “Estás bem?”, “Como é que estão as coisas com…?”, etc.

O que estas mães precisam, é poder trabalhar os seus medos e as suas angústias, aprendendo a gerir a sua ansiedade para poderem exercer uma parentalidade mais consciente e mais segura também, para educar crianças confiantes, com autoestima e que sabem, e sentem, que podem crescer e arriscar. Quando os filhos crescem, estas mães precisam também atualizar a imagem que têm dos seus filhos, aprendendo a vê-los como pessoas adultas e capazes de se organizar e de gerir as suas vidas, bem como de se cuidar, sustentar, ter e fazer o que precisam para estar bem e seguros emocionalmente, materialmente e financeiramente.

Pode ser uma grande dor para estas mães perceber que os filhos não precisam mais dos cuidados delas, que não estão mais dependentes desses cuidados, e que os filhos, de facto, cresceram e sabem bem cuidar de si. Essas mães podem sentir que perderam o seu propósito e o seu lugar, mas, mais uma vez, cabe a elas, a essas mães, gerir essa angústia que é delas e que não deve nunca ser dos filhos. Não cabe aos filhos a pesada tarefa, e responsabilidade, de assegurarem às suas mães, constantemente, que está tudo bem com eles. As mães precisam confiar que assim é: até prova em contrário, esses filhos estão bem e vão ficar bem nas suas vidas de adulto. Se algum dia eles precisarem, eles sabem a quem recorrer.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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