A relação entre a tristeza e a raiva

A conjunção da tristeza com a raiva é um cavalo de Troia que queremos evitar a todo o custo, mas não conseguimos. É tão difícil de enfrentar, que preferimos ocupar-nos de atividades ou distrações, seja submergindo no trabalho, na ajuda aos outros, na socialização, redes sociais, ver programas de televisão, ou o que quer que seja. Tudo o que nos distraia dessa dor ou angústia que por vezes sentimos quando algo não vai bem dentro de nós.

Temos imensa dificuldade em abordar ou conter o nosso mundo emocional porque não queremos enfrentar a dor ou mágoa que lá está. Primeiro, por ser doloroso e custoso. Segundo, por acharmos que não vamos conseguir dar conta. Nunca ninguém nos ensinou a fazer isso, pois não? Nós não sabemos como e, para além do mais, preferíamos não ter de tomar contacto com essas nossas partes dolorosas e feridas. Mas não há para onde fugir.

Seja para onde for, ou o que fizer, o mundo emocional estará sempre consigo. Até o conseguirá silenciar durante algum tempo, mas nunca indeterminadamente. Posto isto, resta saber que a tristeza e a raiva estão associadas. Há quem diga que a depressão é uma raiva contida, ou não processada. E sim, se pensar bem, quantas vezes quando sente tristeza não fica irritado/a consigo mesmo/a porque está a ser “fraco/a” e não tem jeito nenhum estar triste agora, até porque nem tem assim tantos motivos para isso, e mesmo que tenha, não quer ficar triste. No fundo, não quer aceitar a sua dor e a tristeza associada.

Muitas vezes ficamos tristes quando algo não corre como esperávamos, quando ficamos desiludidos por algo que correu mal e não correspondeu aos nossos ideais mais queridos, quando algo frustrou as nossas expectativas e quando algo nos magoou imenso. Quando isso acontece, também ficamos ressentidos, aborrecidos, irritados e com raiva em relação à situação ou pessoa que a precipitou. Também podemos ficar com raiva em relação a nós mesmos pelo nosso comportamento, quando sentimos que falhámos ou que fizemos ou dissemos algo de que nos arrependemos, a seguir vem a tristeza e os pensamentos automáticos negativos: “És uma m****, não fazes nada bem, é sempre a mesma coisa, há de ser sempre assim, nuca mudas”, etc.

Então a raiva traz a tristeza e a tristeza traz a raiva. Faz sentido? Ficamos tristes com uma situação e depois ficamos com raiva por estarmos tristes porque na realidade não queremos estar tristes, queremos ser fortes sempre – foi isso que aprendemos sempre que ficávamos tristes no passado, e a resposta que nos deram sempre: “Tens de ser forte”. Choras num funeral? Tens de ser forte. Choras porque te divorciaste ou separaste? Tens de ser forte. Perdeste o trabalho? Tens de ser forte. Sempre esta resposta: tens de ser forte. Então aprendemos que a tristeza significa fraqueza e tem de ser exterminada ou eliminada completamente. Só que não funciona pois não? Nunca houve tanta gente deprimida como agora. Porque será? Negamos as nossas emoções, e isso não funciona.

Ficamos com raiva quando algo corre mal e ficamos aborrecidos, logo de seguida jorram os pensamentos negativos sobre o assunto e a ruminação sobre o mesmo, sobre os porquês de ter sido assim, sobre a injustiça do sucedido, porque nos sentimos feridos, magoados, rejeitados, abandonados, atraiçoados, humilhados ou injustiçados. Sempre porque algo nos feriu. Primeiro podemos sentir raiva, de seguida vem a tristeza relativa à ferida que foi ativada perante a situação.

Então, a dupla tristeza-raiva tem a sua beleza, vem para nos indicar onde estamos e o que precisa ser feito: acolher a parte que se sentiu ferida, seja pela injustiça, pela rejeição que sentiu, ou pelo que quer que seja. Transformamos o cavalo de Troia um belo cavalo lusitano que nós montamos e cujas rédeas estão nas nossas mãos. Afinal, o poder sempre esteve em nós para transformar o que quer que seja que nos aconteça, e o que sentimos a respeito.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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