O que é que os adolescentes precisam afinal?

Um dia destes uma mãe perguntava-me: “Mas afinal o que é que os adolescentes precisam?!”, referindo-se à depressão na adolescência e às dificuldades emocionais que os adolescentes experienciam nesta fase, onde se incluem também, para além da depressão, os ataques de pânico, ideação suicida, automutilação e problemas de autoestima. Estes serão os temas mais comuns a encontrar num adolescente em crise, onde se podem incluir as perturbações do comportamento alimentar também, como a anorexia, bulimia e a compulsão alimentar.

O que esta mãe queria dizer com esta pergunta tinha a ver com uma incompreensão dos problemas emocionais dos adolescentes, considerando que eles têm tudo o que a sua geração não teve, nomeadamente em termos de afeto, carinho, condições materiais e económicas, acesso a educação, tecnologia, atividades diversificadas e uma cultura de maior liberdade de expressão, bem como acesso a apoio psicológico e terapêutico de todas as formas e feitios, e mais oportunidades do que alguma vez houve a todos os níveis.

Estamos a falar de uma mãe que está no ciclo de vida dos 60 anos. Geração que teve de lutar muito por oportunidades de estudo, formação e de trabalho, geração que viveu com algumas limitações mesmo a nível dos afetos, considerando que os pais de antigamente educavam pelo autoritarismo, uma educação mais funcional do que afetiva, e onde não havia um diálogo de igual para igual, e onde os filhos tinham de obedecer e ponto, tendo de iniciar a sua vida laboral na adolescência, devido aos fracos recursos económicos que essa família pudesse ter.

Era uma cultura de “come e cala”, não havia espaço para retrucar ou mostrar desagrado. Uma cultura de fazer o que tinha de ser feito, independentemente do que se sentia. Não havia espaço para a expressão emocional e a compreensão ou até da aceitação das questões emocionais das crianças e adolescentes. Obviamente que esta realidade não se pode generalizar a todas as famílias, mas a grande maioria pode estar contemplada nestas questões, com mais ou com menos recursos económicos. Era assim que funcionavam as coisas e ponto.

Atualmente, ainda há famílias que possam funcionar assim, é certo, mas nunca houve tanta informação, educação, literacia e consciência acerca das questões emocionais, que é o que se trata aqui, quando o tema é a parentalidade e adolescência. Ora respondendo à pergunta o que é que os adolescentes precisam afinal, é isso mesmo: compreensão e aceitação. Não lhes basta o apoio incondicional dos pais, terem todas as condições económicas ou materiais, ou tudo o que o adolescente possa precisar em termos materiais, como boas roupas, sapatos ou tecnologia, passeios, viagens e liberdade para estar com os amigos.

O adolescente quer ser visto, quer ser reconhecido nas suas questões emocionais como inseguranças, dúvidas, direito a ter crises de ansiedade, estar deprimido, revoltado, frustrado. Muitas vezes as repostas dos pais a estas questões é: “Isso não é assim tão grave para te sentires assim”, ou “Mas tu tens tudo, o que te falta? Eu na tua idade não tinha metade das coisas que tu tens e era feliz”, “Tens de deixar de dar importância a essas coisas…” (o que os outros dizem, deixar de falar com um/a amigo/a), etc. Tudo o que está implícito nestas afirmações é desvalorização do que o adolescente vive e sente: “Não tens o direito de te sentir assim/isso que aconteceu não é suficiente para te sentires assim/não devias de te sentir assim”.

Sim os tempos de antigamente eram desafiantes a um nível, hoje em dia são desafiantes a outros níveis. Ou seja, os desafios de hoje são outros. Nunca houve tanta perda de privacidade e de limites como hoje em dia devido às redes sociais. O fenómeno da comparação está mais grave do que nunca, devido ao efeito Instagram (vidas e corpos perfeitos). O bullying assumiu novos contornos devido à perseguição online. Os jogos online trazem novas dependências aos jovens. As dinâmicas juvenis são mais complexas do que nunca, como tal, as questões emocionais são mais complexas do que nunca também.

Os pais confundem o ter com o sentir. Não é porque se tem uma família amorosa, carinhosa, presente e preocupada que tudo basta, quando a vida do adolescente é cercada de todo um contexto e cultura de exigência por parte da família, por parte da comunidade escolar e por parte dos media. A exigência para estes adolescentes serem perfeitos é brutal. Os pais muitas vezes fazem isto e nem se apercebem: querem que os seus filhos sejam cópias exatas deles mesmos, com os mesmos valores, princípios e desejos, querendo que eles cumpram e correspondam às suas expectativas sempre, sem disso se aperceberem. O adolescente ressente-se disso e vai querer marcar a sua posição. Então os pais reclamam que eles são egoístas e ingratos, ou frios e insensíveis.

Os adolescentes criam a capa de frios e insensíveis para sobreviver a um mundo desafiante e exigente onde se lhes pede imensas coisas e eles, por terem tudo, têm de corresponder. É a função deles, segundo os pais: estudar, ter boas notas, ser filhos e alunos exemplares, nunca falharem, nunca errarem, fazerem sempre as escolhas certas (para os pais, ou adultos significativos). Percebem agora porque os adolescentes andam stressados, deprimidos e a pirar de vez em quando? É a função do adolescente viver, errar, fazer as escolhas erradas, aprender com elas, e ter pais que não os criticam quando eles fazem essas escolhas: mesmo que seja pintar o cabelo de verde, vestir-se com roupas rasgadas e namorar com o bad boy da escola, por exemplo.

Quanto mais critica ou desvaloriza as questões do adolescente, mais ele se fecha e deprime, sentindo-se incompreendido e rejeitado. Então, neste aspeto, cabe aos pais moderarem as suas expetativas, perceberem que têm à sua frente um ser completamente distinto, que não tem de corresponder ao que deseja para ele ou ela, ainda que isso seja, de facto, o melhor possível. E quem somos nós para decretar o que é certo ou errado para os outros, ainda que esse outro seja o seu filho/a? Isso só funciona quando o adolescente é bebé ou criança. A fase da adolescência é isso mesmo: uma negociação de limites e expetativas entre o adulto e o jovem que se começa a firmar e a individuar, ainda que seja de forma diferente do que os pais desejariam. Faz parte e é necessário.

Cabe ao pai e à mãe abandonarem a fantasia da idealização e poderem ver o seu filho ou a sua filha para além da lente de desejo narcísico de ter uma jovem cópia sua que repare os seus próprios erros e faça as escolhas que julga corretas. Cabe ao adolescente ser livre e tomar as suas próprias decisões, ser a sua própria pessoa e construir a sua própria vida ainda que em moldes diferentes do que a família idealiza. Chama-se a isso crescimento e evolução. Se assim não fosse, a mudança cultural e social não seria possível. O adolescente quer, portanto, ser a sua própria pessoa, explorando o mundo à sua volta da forma que for possível e desejável para si, com a menor crítica ou julgamento possível.

Não é o que todos queremos, no fundo? Aceitação.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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