Os pais dão e os filhos recebem

Não é função dos pais receber dos filhos, neste caso, de receberem colo, carinho, cuidados ou a atenção que não receberam dos seus próprios pais, ou que os filhos cuidem das suas preocupações e emoções e sejam aquilo que os pais idealizam, não lhe dando trabalhos ou dores de cabeça. Aos filhos cabe a função de viver a sua vida e cometer os seus erros, independentemente do que os pais idealizaram para eles. Como tal, os filhos não existem para realizar os pais mas sim para serem seres separados e livres, senão seríamos todos autómatos, a corresponder às expectativas de outras pessoas e nunca realizando os nossos sonhos mais íntimos.

Como seria a vida se fizéssemos sempre o que os outros esperam de nós? Como seria o mundo? Será que haveria avanço, evolução, revolução? O mundo sempre mudou com a irreverência, com aqueles que pensavam diferente. Se não, por esta altura, ainda haveria escravatura, por exemplo, e as mulheres não poderiam votar, frequentar o ensino superior. Ainda seriam queimadas na fogueira pessoas acusadas de bruxaria, e ainda se apedrejariam criminosos em praça pública.

Qual é o sentido de sermos como os outros querem? Mesmo os pais que desejam que os filhos sejam de determinada maneira, certamente que eles também se querem sentir livre e viver a vida do seu jeito, independentemente do que os seus próprios pais idealizaram para si, ou o que outras pessoas possam querer ou expectar. Todos, sem exceção, queremos ser livres e que aceitem quem somos, as nossas decisões, escolhas, dons, talentos, personalidade, estilo, orientação sexual, escolhas políticas e religiosas.

A verdadeira dificuldade é aceitar os outros como são. Apesar de todos queremos ser aceites, temos dificuldade em aceitar os outros quando estes não correspondem às nossas expetativas. Há quem esteja consciente disto e quem não esteja. Quem não está consciente das suas próprias expetativas e fica num estado de extrema frustração, provavelmente não percebe que os outros não existem para corresponder às suas expetativas. Quem compreende que os outros não têm de corresponder às suas expetativas, pode até ficar frustrado/a, mas consegue exercitar a aceitação do outro e da sua própria frustração.

Indo mais longe, as maiores guerras nunca foram travadas em nome da religião ou da política, mas sim da falta de aceitação. As guerras são travadas quando alguém diz: “Eu estou certo, e tu não. E isso deve ter determinada consequência. Deves fazer como eu digo.” E guerras não são só civis ou mundiais, são dentro da própria família, quando se quer que o outro se submeta a leis e a regras incompatíveis com o seu self individual. O poder do grupo, do sistema ou do clã (família ou sociedade) assim o exige, mas a verdadeira liberdade só é atingida quando recebemos o que é possível tomar e seguirmos livres para dar continuidade a esse legado, da forma que for compatível para nós, mesmo fazendo diferente.

Como tal, os pais dão a vida, os recursos e as condições para que um filho ou uma filha vingue e sobreviva, mas por tê-lo feito, não devem exigir que o filho ou a filha deem a vida de volta ao terem de corresponder, pois é uma dívida demasiado grande e que jamais pode ser paga. A vida não deve ser paga com lealdade, mas com mais vida, que deve ser transmitida para frente, para o futuro, para novos projetos. Vida que o filho ou a filha possa dar de volta ao mundo no seguimento da sua existência. Como tal, os pais dão, e os filhos tomam. Esses filhos, irão dar ao mundo, aos seus próprios filhos, aos seus projetos profissionais, humanitários ou outros, e não de volta para os pais. Esse é o movimento que faz com que a vida se multiplique e se expanda, e não o contrário.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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