Amor nas redes sociais

Quando saímos da escola ou da universidade, as pessoas que podemos conhecer para iniciarmos uma relação, seja de amizade ou de intimidade, tornam-se reduzidas, a menos que estejamos num local de trabalho misto ou onde trabalhem muitas pessoas. Contudo, no ambiente de trabalho, muitas pessoas podem ser já casadas e com filhos, o que reduz a oferta. Seja porque essas pessoas têm menos tempo para investir numa amizade (normalmente quem tem filhos pequenos) ou porque estão indisponíveis para um compromisso e uma relação de casal (pessoas já comprometidas).

Nestes casos, ou conhecemos parceiros em atividades que façamos ou através do grupo de amigos, conhecendo amigos de amigos. Quando mesmo assim parece difícil de encontrar o/a “tal” muitas vezes o que acontece é a procura de soluções alternativas, como as redes sociais ou sites de encontros. E é aí que muitas pessoas se vêm em situações difíceis.

Em tempos de amores líquidos, e de relacionamentos fast food, toda a gente quer ter uma ligação exclusiva com alguém, de amor, respeito e aceitação. Não quer dizer que toda a gente o consiga ter, pois muitas são as condicionantes a isso, nomeadamente o medo de sofrer (quem foge da vinculação, compromisso ou intimidade) e os mecanismos de autosabotagem que esse medo produz, e a dificuldade em encontrar quem esteja disponível para se ligar e iniciar uma relação de compromisso.

O programa da MTV, Catfish, mostra pessoas que são vigarizadas e enganadas por outras pessoas que fazem perfis falsos de Facebook ou Instagram. Essas pessoas que criam perfis falsos, fazem-nos porque gostariam de ser outras pessoas, porque acham que ninguém gostaria delas tal como são e porque, no fundo, procuram carinho e aceitação que acham que não conseguiriam no mundo real sendo quem são. Falta de amor próprio, traumas e insegurança fá-las criar esses perfis falsos com fotografias de outras pessoas que consideram mais atraentes e desejáveis.

A necessidade, seja de quem cria perfis falsos, seja de quem se enamora de alguém online que nunca conheceu (e que normalmente recusa fazer videochamadas ou falar ao telefone ou mesmo encontrar-se pessoalmente), é sempre a mesma: sentir-se desejado/a, seguro/a e amado/a ou apreciado/a. Toda a gente quer ser única e especial para alguém. Procuramos isso num outro significativo. E mesmo apesar da pessoa do outro lado do ecrã não ser aquela que aparenta ser, a ligação que se cria entre essas duas pessoas é real. É real porque é alimentada diariamente durante meses e até anos nessa perspetiva de apoio, encorajamento, partilha, disponibilidade, compreensão e aceitação.

Quando essas duas pessoas se encontram finalmente, mesmo uma não sendo quem disse ser, há uma desilusão. Primeiro porque a pessoa vigarizada se sente enganada e exposta, afinal partilhou coisas íntimas com alguém que afinal não é quem disse ser. Logo aí há uma quebra de confiança. Segundo, a outra pessoa normalmente é muito diferente fisicamente de quem se esperava encontrar. E num mundo em que a atração física é, na grande maioria das vezes, o ponto de partida para o desenvolvimento de uma relação de casal, logo aí há a segunda quebra. Contudo, a conexão foi real e o que se sentiu também.

O que quero dizer com isto tudo tem a ver com a profunda necessidade de conexão que temos e as ilusões ou expetativas que criamos sobre os outros: desejamos, no fundo, de alguém que corresponda à imagem de um amor que não existe na vida real do dia-a-dia, das rotinas, da bagagem que cada um traz e da convivência diária a médio, longo prazo. Por isso é que tudo parece perfeito no mundo virtual, onde alguém escuta sem crítica ou julgamento, que tem sempre uma palavra reconfortante e apoia em todas as circunstâncias. Mas esse alguém é alguém que existe só para isso, que só mostra o melhor de si e onde não entram as questões comezinhas de quem se vê todos os dias, com todas as questões associadas de desentendimentos, discussões, quem fez o quê ou deixou de fazer.

Como tal, o amor das redes sociais só veio expandir as possibilidades de conhecer alguém, bem como as oportunidades de crescimento e evolução que representam as relações, resultado das desilusões que advêm das expetativas frustradas. Essas desilusões servem para mostrar a idealização que é feita e as feridas que estão na base da procura de uma relação ou vinculação: necessidade de segurança, aceitação, pertença, afeto e carinho. Talvez porque lhe faltou, talvez porque não tenha atualmente, ou talvez porque ache que precise de mais.

O que é certo é que esse ideal que procura não é real. A pessoa e a relação perfeita não existem. Ninguém lhe pode dar o que lhe falta porque a outra pessoa, muitas vezes, também não tem para dar. Somos todos mendigos, pedindo por atenção, carinho, compreensão e aceitação quando nem o conseguimos dar a nós mesmos. É aí que tudo desmorona perante uma relação com o outro. Então, o caminho é, como sempre, para dentro. Dando-se profundamente o que tanto procura. Curando as feridas que ninguém pode curar por si. Acolhendo as suas emoções, alimentando a sua mente e corpo do que lhe faz bem. E sendo quem quer ter na sua vida. Só assim o outro faz sentido.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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