O meu ano a viver sem medo

Fiz uma experiência e silenciei o meu medo por um ano, e o que vou partilhar aqui convosco foi a minha realidade de viver doze meses sem medo:

Ao princípio, foi um pouco estranho. Não tinha nada que me pesasse, que me prendesse ou limitasse. Sentia-me mais leve, como se um peso tivesse sido retirado do meu peito. Parece que podia respirar melhor. Senti também que podia fazer tudo, que não havia, verdadeiramente, um impedimento. Não me preocupava com as coisas com as quais me costumava preocupar. Deixou de ser relevante o que pensavam de mim, se teria dinheiro ao final do mês ou não, se conseguiria dar resposta no meu trabalho, aos meus casos, ou não. Não me preocupava com o que acontecia, comigo ou com os outros. Se alguém estava doente, aflito, preocupado, eu não entendia porquê. Porquê alguém preocupar-se tanto uma coisa que não estava a acontecer? O futuro deixou de me preocupar, pura e simplesmente.

Vivi no presente, como numa tinha vivido. Tudo parecia maravilhoso. Mas era uma ilusão. Ao fazer e dizer tudo o que me apetecia, sem o habitual medo da opinião e sentimentos alheios, as pessoas começaram a olhar para mim de forma diferente. Só fazia e dizia o que me apetecia. Caso não me apetecesse ir trabalhar, porque haveria de ir? Se achasse alguém chato, dizia ou simplesmente levantava-me e ia embora. Não honrava compromissos se assim me apetecesse. Deixava o carro ficar sem gasolina, gastava todo o meu dinheiro, se tivesse ou não uma relação com alguém também não importava, afinal começar ou terminar era igual. Perder alguém não era algo que me assustasse.

Não que não ficasse triste ou aborrecida, mas o medo da solidão ou de não encontrar mais ninguém simplesmente não me afetava. Partia-se para a próxima, independentemente de quem fosse e do seu estado civil. Não havia cá essas coisas de “Será que ele tem interesse em mim? Será que ele é casado/tem namorada? Será que somos compatíveis? Será que vou sofrer? Será que vou ser enganada/traída/deixada/trocada por outra?”. O que podiam dizer de mim era igual, não me importava.

Mas depois percebi, vivia só do princípio do prazer. Pertencer ou não, não me importava, então fui ficando cada vez mais sozinha, mais isolada. As pessoas não me levavam a sério, viam que eu não me esforçava para pertencer, não respeitava as “regras” do jogo. Não correspondia a expetativas e desiludia muita gente porque não havia o medo da desaprovação. Perdi também clientes, pois muitas vezes nem ia trabalhar, se não me apetecesse. A minha assistente cansou-se de tentar justificar a minha ausência e despediu-se, tendo encontrado trabalho com outra pessoa.

Não me importei com pagamentos de muitas coisas, então a minha caixa de correio, e de email, abarrotava de dívidas. Simplesmente não queria saber. Fui perdendo os meus bens, até porque não tinha cuidado nenhum com eles, e muita coisa deixava espalhada por onde passasse. Ter ou não ter era-me indiferente. Comecei a ver que ia ficando sem tudo o que lutei por conquistar: coisas materiais e imateriais, como respeito, apreciação, admiração, reconhecimento, procura, pertença… Vendia os meus programas online a preços exorbitantes só porque sim e ou ninguém comprava ou quem comprava, eu não queria saber, não comparecia às aulas se não me apetecesse. Ficava antes a ver televisão ou fazer outra coisa que me interessasse.

Conseguem perceber agora?

Esta podia ser, resumidamente, a minha história, se, por algum motivo alheio à minha vontade, eu ficasse, subitamente, sem medo. Mas não fiquei. Consigo sim, reduzi-lo ou contê-lo em determinadas situações quando ele é descabido, desmesurado, irracional e imaginário. Continuo com ele para o que é necessário: para a minha sobrevivência física e social. Sem medo, nada importaria, ou não nos preocuparíamos com o futuro, com a construção ou a manutenção de algo, e isso tem consequências graves. Sem medo existiria a anarquia, cada um por si. Seríamos crianças sem ordem nem lei e tudo valia para fazer valer os nossos interesses. A vida não teria valor. As coisas não teriam valor.

Viver destemidamente é possível, com peso e medida. Com responsabilidade e consciência. Viver em medo e no medo deve ser evitado. Devemos desenvolver o que chamo da boa relação com o medo. É possível. Para saber mais sobre o assunto, veja a secção cursos aqui no site que tenho um programa específico para trabalhar este tema, que irei lançar brevemente. Medo sim, mas a nosso favor.

Published by Paula Chocalhinho

Uso a Psicologia, a Hipnose e as Constelações Familiares para facilitar processos de mudança baseados na autoanálise e no autoconhecimento, indo às causas das perturbações e sintomas (aumento da consciência), promovendo o ensino de estratégias de regulação emocional (ansiedade e pânico) e trabalho com a criança interior para acolhimento das feridas e superação dos traumas. Para marcações, preencher o formulário em Contactar. Podcast Psicologia de Bolso no Spotify.

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