Quando vivemos na zona de conforto dos outros

Sim, vivemos muitas vezes na zona de conforto dos outros. Imaginem filhos que não fazem o que gostariam de fazer com medo da desaprovação dos seus pais. Os pais carregam medos, nomeadamente o medo da perda dos filhos, o medo da perda de controlo, o medo do risco, o medo do sofrimento, como tal, querem os seus filhos perto, não querem que os filhos voem para fora do ninho ou para muito longe. Mas isso pode acontecer com toda a gente: toda a gente que projeta em nós os seus medos, e que também não nos quer ver voar porque isso representa uma possibilidade assustadora, se outros conseguem viver os seus sonhos e os seus maiores potenciais, como é que essa pessoa que não arrisca se sentiria?

O mesmo com parceiros e parceiras de vida. Essa história do “só quero ver-te feliz” não é bem assim. Quero ver-te feliz desde que estejas ao meu lado, ou aqui perto, ou onde possa controlar o que fazes, ou onde te possa ver ou chegar. Os pais, sem querer, também fazem isso. Querem os seus filhos felizes, desde que. E o desde que é um condicionalismo muito forte. Todos tememos a mudança de alguma forma, principalmente a desaprovação. Porque a desaprovação representa um risco da perda de apreço e perda de lugar (pertença). E nessa culpa da desaprovação (de não correspondermos ao que os outros querem), prendemos muitas vezes o nosso sucesso e potencial.

Já perdi a conta às pessoas que atendo com estas questões: o medo da desaprovação. Pessoas que vivem à sombra do que os outros possam querer ou precisar. Pessoas que se sujeitam a negligência, críticas, maus tratos psicológicos, no afã de cuidar, de proteger, de tentar salvar. Porque sim, filhos não salvam os pais das suas dores e sofrimentos, tal como pais também não podem proteger filhos das suas experiências e vivências dolorosas. Podemos sim validar, compreender, libertar, permitir o outro ser quem é, até nas dores, processos e negações. Filhos, ou pessoas, que se sacrificam pelos outros, muitas vezes seguem para o fundo do poço com as pessoas que amam. Nem as retiram de lá, se elas não quiserem sair, como também se deixam afundar. Esse é o princípio da multiplicação: não só não consigo retirar o outro da dor, como sofro com ele.

Honrar a vida que nos foi dada é fazer diferente, é escolher o que é bom para nós, mesmo que não seja o que o outro quer. Porque não é nossa missão ser o que o outro quer, fazer o que o outro espera. A nossa missão é sermos alegremente quem somos, apesar da desaprovação. Para isso, temos sim, de deixar a necessidade de aprovação e a culpa de não corresponder para trás. Afinal, quem tem medo da desaprovação e sente culpa é a nossa criança interior, que foi programada para obedecer e fazer o que lhe mandam, ou o que esperam dela. O adulto tem de assumir o lugar de comando e cuidar dessa criança. É o adulto que se aprova e valida. O adulto cuida das suas dores e partes em sofrimento. O adulto deixa com os outros aquilo que é dos outros, incluindo as suas dores e sofrimento. Como tal, cada um só é responsável de cuidar do que é seu. Só assim podemos ser todos, verdadeiramente, livres.

Às vezes temos de abandonar os porquês e fazer o que precisa ser feito

Às vezes levamos a vida a interrogar-nos do porquê disto ou daquilo, e isso consome-nos porque nem sempre temos ou vamos ter as respostas a esses porquês. Às vezes até podemos ter, mas nem sempre nos contentamos com essas respostas, ou não ficamos convencidos com elas. Podemos até achar que há outros porquês e que aquelas respostas não são suficientes para explicá-los. Ficar nos porquês é uma tremenda perda de tempo e de energia, porque nos faz ficar presos/as a essas questões, não encontrando o “closure” ou o fecho de alguns ciclos e acontecimentos, ou perdas significativas.

Perguntar porque a vida é como é, e porque certas pessoas ou relacionamentos são como são, porque é que alguém fica doente ou morre jovem, por exemplo, são perguntas que nem sempre tem respostas diretas e simples, ou têm resposta de todo. Há coisas que acontecem sem a nossa vontade ou intervenção, e não há nada a fazer. É só o que é. Deixa-nos impotentes mas há que aceitar a imprevisibilidade da vida.

Questionarmo-nos acerca do futuro do mundo ou das nossas vidas, é outra armadilha. Os porquês e os “que será que vai acontecer”, mais do que tudo, prendem – quando ficamos tempo indeterminado neles. Devemos sim questionarmo-nos acerca de certos porquês, como padrões que nos condicionam, e contemplar cenários futuros para que lhes possamos dar uma possível solução, e nos prepararmos para ela, para que possamos crescer na escada da evolução.

No caso da ansiedade, porque é que existe, de onde vem e porque a sente, é bom perceber. Mas mais do que ficar na hipervigilância dos sinais e sintomas e nos possíveis porquês que nem sempre encontra, é procurar ajuda terapêutica. Seja no caso de sofrer de ansiedade constante, ter ataques de pânico ou depressão, por exemplo, mais do que auto analisar-se, é fazer algo a respeito. No fundo, sair dos sintomas e das causas e ir em direção à superação, cura ou fecho daquilo que em si provoca esses sintomas. Como tal, os porquês são necessários, mas só se acompanhados de ação concreta, senão fica só com informação e os sintomas mantidos na mesma.

Recalcamento = Somatização

Tudo o que nós recalcamos somatizamos. E o que é somatizar? É produzir sintomas físicos, relacionados com questões emocionais ou psicológicas. A irritabilidade ou stress dá comichão, urticária ou eczema. A ansiedade e o medo dão taquicardia, dores de estômago ou cólicas. Os assuntos recalcados produzem ataques de pânico, bem como as crenças limitantes e os pensamentos automáticos negativos como: “Vou morrer”, “Tenho uma doença grave”. “Vou enlouquecer”. A própria hipocondria é um sintoma de preocupações e hipervigilância constante sobre a saúde e sobre os sinais, muitas vezes normais, do nosso corpo.

E estes são apenas alguns exemplos. Mas o que quero realmente falar aqui é sobre os assuntos emocionais recalcados. Não é porque as coisas aconteceram há tempo, ou que já não se lembre delas, que não possam estar a provocar sintomas na sua vida. Quem chega até mim com ataques de pânico sem perceber o porquê, tem, provavelmente (para não dizer “de certeza”) conteúdos emocionais perturbadores arquivados, que precisam ser vistos, reconhecidos e acolhidos à luz de um novo olhar e perspetiva.

Todos temos traumas, mesmo quem teve uma infância e adolescência “normal” e feliz. Vivemos muitas coisas que nos impactam negativamente. No fundo, tudo o que nos marca negativamente deixa um registo, que muitas vezes faz criar as tais crenças limitantes ou perceções distorcidas da realidade. Essas perceções convertem-se nessas crenças nucleares, que mais tarde fazem produzir os pensamentos automáticos negativos como: “Não sou capaz”, “Não vou conseguir”, “Não sou tão competente/interessante como…”, fruto da tradicional e popular crença “Não sou suficiente”.

Como tal, o nosso mundo emocional fala connosco. Comunica através desses sintomas que, muitas vezes, ignoramos. Aí o mundo emocional grita para poder ser visto. E é isso que acontece com os ataques de pânico quando vêm inesperadamente e, aparentemente, sem motivo. A necessidade, nestes casos, é ir à causa dessa angústia e medo que estão por detrás de um ataque de pânico. Perceber as causas e conter as nossas partes feridas. Não conheço outro caminho para ultrapassar e neutralizar esse sintoma que é o ataque de pânico. Significa que há uma parte sua assustada, cheia de medo e desamparada algures. Há que lá ir cuidar dela, com carinho e gentileza.

O meu ano a viver sem medo

Fiz uma experiência e silenciei o meu medo por um ano, e o que vou partilhar aqui convosco foi a minha realidade de viver doze meses sem medo:

Ao princípio, foi um pouco estranho. Não tinha nada que me pesasse, que me prendesse ou limitasse. Sentia-me mais leve, como se um peso tivesse sido retirado do meu peito. Parece que podia respirar melhor. Senti também que podia fazer tudo, que não havia, verdadeiramente, um impedimento. Não me preocupava com as coisas com as quais me costumava preocupar. Deixou de ser relevante o que pensavam de mim, se teria dinheiro ao final do mês ou não, se conseguiria dar resposta no meu trabalho, aos meus casos, ou não. Não me preocupava com o que acontecia, comigo ou com os outros. Se alguém estava doente, aflito, preocupado, eu não entendia porquê. Porquê alguém preocupar-se tanto uma coisa que não estava a acontecer? O futuro deixou de me preocupar, pura e simplesmente.

Vivi no presente, como numa tinha vivido. Tudo parecia maravilhoso. Mas era uma ilusão. Ao fazer e dizer tudo o que me apetecia, sem o habitual medo da opinião e sentimentos alheios, as pessoas começaram a olhar para mim de forma diferente. Só fazia e dizia o que me apetecia. Caso não me apetecesse ir trabalhar, porque haveria de ir? Se achasse alguém chato, dizia ou simplesmente levantava-me e ia embora. Não honrava compromissos se assim me apetecesse. Deixava o carro ficar sem gasolina, gastava todo o meu dinheiro, se tivesse ou não uma relação com alguém também não importava, afinal começar ou terminar era igual. Perder alguém não era algo que me assustasse.

Não que não ficasse triste ou aborrecida, mas o medo da solidão ou de não encontrar mais ninguém simplesmente não me afetava. Partia-se para a próxima, independentemente de quem fosse e do seu estado civil. Não havia cá essas coisas de “Será que ele tem interesse em mim? Será que ele é casado/tem namorada? Será que somos compatíveis? Será que vou sofrer? Será que vou ser enganada/traída/deixada/trocada por outra?”. O que podiam dizer de mim era igual, não me importava.

Mas depois percebi, vivia só do princípio do prazer. Pertencer ou não, não me importava, então fui ficando cada vez mais sozinha, mais isolada. As pessoas não me levavam a sério, viam que eu não me esforçava para pertencer, não respeitava as “regras” do jogo. Não correspondia a expetativas e desiludia muita gente porque não havia o medo da desaprovação. Perdi também clientes, pois muitas vezes nem ia trabalhar, se não me apetecesse. A minha assistente cansou-se de tentar justificar a minha ausência e despediu-se, tendo encontrado trabalho com outra pessoa.

Não me importei com pagamentos de muitas coisas, então a minha caixa de correio, e de email, abarrotava de dívidas. Simplesmente não queria saber. Fui perdendo os meus bens, até porque não tinha cuidado nenhum com eles, e muita coisa deixava espalhada por onde passasse. Ter ou não ter era-me indiferente. Comecei a ver que ia ficando sem tudo o que lutei por conquistar: coisas materiais e imateriais, como respeito, apreciação, admiração, reconhecimento, procura, pertença… Vendia os meus programas online a preços exorbitantes só porque sim e ou ninguém comprava ou quem comprava, eu não queria saber, não comparecia às aulas se não me apetecesse. Ficava antes a ver televisão ou fazer outra coisa que me interessasse.

Conseguem perceber agora?

Esta podia ser, resumidamente, a minha história, se, por algum motivo alheio à minha vontade, eu ficasse, subitamente, sem medo. Mas não fiquei. Consigo sim, reduzi-lo ou contê-lo em determinadas situações quando ele é descabido, desmesurado, irracional e imaginário. Continuo com ele para o que é necessário: para a minha sobrevivência física e social. Sem medo, nada importaria, ou não nos preocuparíamos com o futuro, com a construção ou a manutenção de algo, e isso tem consequências graves. Sem medo existiria a anarquia, cada um por si. Seríamos crianças sem ordem nem lei e tudo valia para fazer valer os nossos interesses. A vida não teria valor. As coisas não teriam valor.

Viver destemidamente é possível, com peso e medida. Com responsabilidade e consciência. Viver em medo e no medo deve ser evitado. Devemos desenvolver o que chamo da boa relação com o medo. É possível. Para saber mais sobre o assunto, veja a secção cursos aqui no site que tenho um programa específico para trabalhar este tema, que irei lançar brevemente. Medo sim, mas a nosso favor.

Amor nas redes sociais

Quando saímos da escola ou da universidade, as pessoas que podemos conhecer para iniciarmos uma relação, seja de amizade ou de intimidade, tornam-se reduzidas, a menos que estejamos num local de trabalho misto ou onde trabalhem muitas pessoas. Contudo, no ambiente de trabalho, muitas pessoas podem ser já casadas e com filhos, o que reduz a oferta. Seja porque essas pessoas têm menos tempo para investir numa amizade (normalmente quem tem filhos pequenos) ou porque estão indisponíveis para um compromisso e uma relação de casal (pessoas já comprometidas).

Nestes casos, ou conhecemos parceiros em atividades que façamos ou através do grupo de amigos, conhecendo amigos de amigos. Quando mesmo assim parece difícil de encontrar o/a “tal” muitas vezes o que acontece é a procura de soluções alternativas, como as redes sociais ou sites de encontros. E é aí que muitas pessoas se vêm em situações difíceis.

Em tempos de amores líquidos, e de relacionamentos fast food, toda a gente quer ter uma ligação exclusiva com alguém, de amor, respeito e aceitação. Não quer dizer que toda a gente o consiga ter, pois muitas são as condicionantes a isso, nomeadamente o medo de sofrer (quem foge da vinculação, compromisso ou intimidade) e os mecanismos de autosabotagem que esse medo produz, e a dificuldade em encontrar quem esteja disponível para se ligar e iniciar uma relação de compromisso.

O programa da MTV, Catfish, mostra pessoas que são vigarizadas e enganadas por outras pessoas que fazem perfis falsos de Facebook ou Instagram. Essas pessoas que criam perfis falsos, fazem-nos porque gostariam de ser outras pessoas, porque acham que ninguém gostaria delas tal como são e porque, no fundo, procuram carinho e aceitação que acham que não conseguiriam no mundo real sendo quem são. Falta de amor próprio, traumas e insegurança fá-las criar esses perfis falsos com fotografias de outras pessoas que consideram mais atraentes e desejáveis.

A necessidade, seja de quem cria perfis falsos, seja de quem se enamora de alguém online que nunca conheceu (e que normalmente recusa fazer videochamadas ou falar ao telefone ou mesmo encontrar-se pessoalmente), é sempre a mesma: sentir-se desejado/a, seguro/a e amado/a ou apreciado/a. Toda a gente quer ser única e especial para alguém. Procuramos isso num outro significativo. E mesmo apesar da pessoa do outro lado do ecrã não ser aquela que aparenta ser, a ligação que se cria entre essas duas pessoas é real. É real porque é alimentada diariamente durante meses e até anos nessa perspetiva de apoio, encorajamento, partilha, disponibilidade, compreensão e aceitação.

Quando essas duas pessoas se encontram finalmente, mesmo uma não sendo quem disse ser, há uma desilusão. Primeiro porque a pessoa vigarizada se sente enganada e exposta, afinal partilhou coisas íntimas com alguém que afinal não é quem disse ser. Logo aí há uma quebra de confiança. Segundo, a outra pessoa normalmente é muito diferente fisicamente de quem se esperava encontrar. E num mundo em que a atração física é, na grande maioria das vezes, o ponto de partida para o desenvolvimento de uma relação de casal, logo aí há a segunda quebra. Contudo, a conexão foi real e o que se sentiu também.

O que quero dizer com isto tudo tem a ver com a profunda necessidade de conexão que temos e as ilusões ou expetativas que criamos sobre os outros: desejamos, no fundo, de alguém que corresponda à imagem de um amor que não existe na vida real do dia-a-dia, das rotinas, da bagagem que cada um traz e da convivência diária a médio, longo prazo. Por isso é que tudo parece perfeito no mundo virtual, onde alguém escuta sem crítica ou julgamento, que tem sempre uma palavra reconfortante e apoia em todas as circunstâncias. Mas esse alguém é alguém que existe só para isso, que só mostra o melhor de si e onde não entram as questões comezinhas de quem se vê todos os dias, com todas as questões associadas de desentendimentos, discussões, quem fez o quê ou deixou de fazer.

Como tal, o amor das redes sociais só veio expandir as possibilidades de conhecer alguém, bem como as oportunidades de crescimento e evolução que representam as relações, resultado das desilusões que advêm das expetativas frustradas. Essas desilusões servem para mostrar a idealização que é feita e as feridas que estão na base da procura de uma relação ou vinculação: necessidade de segurança, aceitação, pertença, afeto e carinho. Talvez porque lhe faltou, talvez porque não tenha atualmente, ou talvez porque ache que precise de mais.

O que é certo é que esse ideal que procura não é real. A pessoa e a relação perfeita não existem. Ninguém lhe pode dar o que lhe falta porque a outra pessoa, muitas vezes, também não tem para dar. Somos todos mendigos, pedindo por atenção, carinho, compreensão e aceitação quando nem o conseguimos dar a nós mesmos. É aí que tudo desmorona perante uma relação com o outro. Então, o caminho é, como sempre, para dentro. Dando-se profundamente o que tanto procura. Curando as feridas que ninguém pode curar por si. Acolhendo as suas emoções, alimentando a sua mente e corpo do que lhe faz bem. E sendo quem quer ter na sua vida. Só assim o outro faz sentido.