Os crimes que cometemos por lealdade

Podia falar nos crimes cometidos contra a humanidade em nome da religião, da política e do capitalismo, mas quero falar dos crimes que cometemos por amor, um amor cego chamado lealdade. E para isso, vou contar-vos uma história:

Era uma vez uma mãe que não teve uma mãe muito carinhosa. Talvez essa mãe da mãe fosse uma pessoa severa, autoritária, pragmática e também ela muito sofrida, com falta de colo materno, pois essa mãe perdeu a sua própria mãe muito cedo. Essa mãe teve filhos, uns que viveram e outros que morreram. As meninas que viveram foram mães. Uma delas, foi mãe de uma menina, uma menina muito desejada. Mais do que desejada, essa menina foi idealizada, idealizada para suprir as necessidades emocionais de uma mãe que se sentia sozinha. Idealizada para ser a pessoa que ia dar tudo o que a sua mãe precisava, no fundo um colo, carinho e compreensão que essa mãe não teve antes. Mas isso não é necessariamente justo para a criança, pois a criança não pode dar o que não é seu para dar: o colo que faltou à sua mãe lá atrás. O colo que faltou a todas as mães antes dela.

Essa menina cresceu a sentir que tinha de corresponder às expectativas desta mãe ferida, pois é assim que a lealdade funciona. Entregou a sua essência (quem ela era) e a sua liberdade (quem ela queria ser), então entristeceu. Essa menina tinha o peso do mundo às costas, o peso de uma mãe ferida, uma mãe que cuidava para ser cuidada. Havia um preço nesse cuidado: “Eu que te dei tudo, que fiz tudo por ti, é assim que me tratas?”. Essa menina sentiu que estava por sua conta no que toca a sentimentos e emoções, teria de cuidar dos seus em silêncio, pois já tinha de cuidar dos da mãe, mesmo que essa mãe disso não se apercebesse e morreria antes de assumir que assim era. Afinal essa mãe não podia assumir que precisava de ser cuidada pois tinha de dar uma imagem de boa mãe, de uma mãe capaz, forte. Mas o que escapou a essa mãe é que todo o seu amor era condicional, como é todo o amor inconsciente: dou-te mas tens de me dar, porque eu preciso desse reconhecimento.

Por não ter podido ser criança, para não dar dissabores aos seus pais, não poder sofrer ou ficar doente sem que a sua mãe colapsasse, essa menina jurou-se solenemente ser forte por todos: por ela, porque tinha de o ser, e pelos outros à sua volta. Como tal foi catalogada de “fria”, ausente, alienada, triste. Mal sabia a sua mãe da dor que esta criança carregou desde sempre, desde até do útero. Mas esta criança queria ser livre, queria poder errar, cair, crescer e deixar de cuidar desta mãe. Para isso, foi para o mais longe que conseguiu, para tentar escapar a essa prisão ou gaiola dourada. E a menina cresceu e voou. Saiu de casa, foi estudar e encontrar a sua profissão e lugar no mundo, sempre com a mãe angustiada atrás, uma mãe constantemente receosa de perder a sua filha. Para essa mãe, essa filha ficaria eternamente ali, ao seu lado, a ser sua confidente e a fazê-la sentir-se bem e segura.

Às filhas, os colos das suas mães.

Se, por ventura, é uma destas meninas da história e ocupou esse lugar, repita para si mesma:

Por isso mãe, te devolvo à tua mãe. Não é o meu papel cuidar de ti e das tuas dores. Elas são tuas e pertencem-te. Não posso mais ocupar esse lugar, pois é pesado demais para mim e não me corresponde. A ti te corresponde o colo da tua mãe, do jeito que foi e do que deu, como te deu. A ti te corresponde tomar isso por completo, ao preço que custou. A mim me cabe o lugar de ser filha, com tudo o que isso implica: ser cuidada e ser incentivada a crescer, e não o contrário. Não posso ser a tua princesa eterna, pois todas as princesas crescem e saem um dia de casa. Assim é a lei da vida.

Tomo para mim a minha essência e a minha liberdade, como minhas e como meus direitos de nascença: ser quem sou e o que quiser vir a ser, para onde quiser ir e o que quiser fazer com o meu corpo, tempo e dinheiro. Liberto-me, pois, desta lealdade cega que me faz ficar presa ao que não quero e o que não é para mim, ou meu, pois a mim me foi dada a vida e com ela a bênção de poder fazer com ela o que entender, assim é o direito dos vivos. A vida a mim me pertence e tomo-a por completo, ao preço que custou.

Moral da história: os crimes que cometemos por lealdade são os crimes de acharmos que temos de ser perfeitos/as, de corresponder às expectativas, de permitirmos e aceitarmos tudo o que vem dos outros, de cuidar dos outros e dos seus sentimentos, de deixarmos de ser quem somos, de permitirmos falta de limites e abusos, e de ficarmos reféns desses mecanismos. Mas tendo consciência deles, podemos ultrapassar e transformar esses mecanismos em algo mais funcional para a nossa vida e superar então a culpa de fazer diferente e de não corresponder.

Transformar a ausência em presença

Seja por uma perda, seja por um sentimento de vazio ou de carência, podemos transformar essa ausência de algo em presença. É dos exercícios, e das conquistas, mais maravilhosas que podemos fazer. Mesmo que haja uma separação, um falecimento de alguém que ama, uma sensação ou sentimento de falta, carência ou solidão, há uma presença capaz de ocupar esses lugares vazios e inóspitos. A presença de si.

Muitas vezes abandonamo-nos por termos sido abandonados/as, rejeitados/as, humilhados/as, atraiçoados/as, injustiçados/as, e sentimos que nos falta algo, que não somos completos/as, que precisamos de algo externo que venha preencher esse lugar. Mas, curiosamente, caso esse preenchimento externo exista (uma pessoa, uma causa, uma relação, um acontecimento), normalmente é algo temporário e algo do qual estamos dependentes, sem qualquer tipo de controlo. A relação pode terminar, a pessoa pode magoar-nos ou estar ausente por vezes, a causa pode chegar ao fim e o acontecimento teve o seu momento e terminou.

Como tal, a única coisa que está na nossa mão e no nosso controlo será sempre a relação que temos connosco. Procuramos fora aquilo que sentimos que não temos, mas muitas vezes o que procuramos fora, é exatamente aquilo que nos falta dar a nós mesmos/as. No fundo, a falta e a carência é exatamente a falta de nós mesmos/as, a ausência de nós mesmos/as. Então, a relação e a conexão que está verdadeiramente à procura é a ligação consigo mesmo/a.

E como pode fortalecer essa conexão, ou mesmo estabelecê-la? Cuidando e acolhendo as suas emoções como de crianças pequenas se tratassem, falando consigo com gentileza, cuidando dos seus pensamentos rebeldes e trazendo a sua criança/adolescente pela mão, sempre atento/a às suas necessidades e manifestações. Ufa, que trabalho, certo? Mas fundamental, se se quer sentir verdadeiramente em paz e harmonia consigo e com os seus vazios e faltas. Você é a pessoa por quem tem esperado todo este tempo, é a minha firme convicção.

Quando perdemos alguém, contudo, seja por separação, afastamento ou morte, podemos continuar a manter a presença dessa pessoa em nós, com carinho e com aceitação, no sentido do que se viveu, da forma que foi e que acabou. Principalmente quando alguém querido parte para outro plano, fica a dor no lugar do amor. Ficamos, muitas vezes, apegados a essa dor, como se a dor fosse a presença dessa pessoa, como o que temos mais próximo da partida dessa pessoa. Mais uma vez, devemos sim manter o sentimento por essa pessoa intacto, no lugar da dor. A presença do que se viveu, as memórias, o afeto, o respeito, o carinho nesse lugar que é o nosso coração, e não a dor ou a raiva da injustiça da partida.

Os pais dão e os filhos recebem

Não é função dos pais receber dos filhos, neste caso, de receberem colo, carinho, cuidados ou a atenção que não receberam dos seus próprios pais, ou que os filhos cuidem das suas preocupações e emoções e sejam aquilo que os pais idealizam, não lhe dando trabalhos ou dores de cabeça. Aos filhos cabe a função de viver a sua vida e cometer os seus erros, independentemente do que os pais idealizaram para eles. Como tal, os filhos não existem para realizar os pais mas sim para serem seres separados e livres, senão seríamos todos autómatos, a corresponder às expectativas de outras pessoas e nunca realizando os nossos sonhos mais íntimos.

Como seria a vida se fizéssemos sempre o que os outros esperam de nós? Como seria o mundo? Será que haveria avanço, evolução, revolução? O mundo sempre mudou com a irreverência, com aqueles que pensavam diferente. Se não, por esta altura, ainda haveria escravatura, por exemplo, e as mulheres não poderiam votar, frequentar o ensino superior. Ainda seriam queimadas na fogueira pessoas acusadas de bruxaria, e ainda se apedrejariam criminosos em praça pública.

Qual é o sentido de sermos como os outros querem? Mesmo os pais que desejam que os filhos sejam de determinada maneira, certamente que eles também se querem sentir livre e viver a vida do seu jeito, independentemente do que os seus próprios pais idealizaram para si, ou o que outras pessoas possam querer ou expectar. Todos, sem exceção, queremos ser livres e que aceitem quem somos, as nossas decisões, escolhas, dons, talentos, personalidade, estilo, orientação sexual, escolhas políticas e religiosas.

A verdadeira dificuldade é aceitar os outros como são. Apesar de todos queremos ser aceites, temos dificuldade em aceitar os outros quando estes não correspondem às nossas expetativas. Há quem esteja consciente disto e quem não esteja. Quem não está consciente das suas próprias expetativas e fica num estado de extrema frustração, provavelmente não percebe que os outros não existem para corresponder às suas expetativas. Quem compreende que os outros não têm de corresponder às suas expetativas, pode até ficar frustrado/a, mas consegue exercitar a aceitação do outro e da sua própria frustração.

Indo mais longe, as maiores guerras nunca foram travadas em nome da religião ou da política, mas sim da falta de aceitação. As guerras são travadas quando alguém diz: “Eu estou certo, e tu não. E isso deve ter determinada consequência. Deves fazer como eu digo.” E guerras não são só civis ou mundiais, são dentro da própria família, quando se quer que o outro se submeta a leis e a regras incompatíveis com o seu self individual. O poder do grupo, do sistema ou do clã (família ou sociedade) assim o exige, mas a verdadeira liberdade só é atingida quando recebemos o que é possível tomar e seguirmos livres para dar continuidade a esse legado, da forma que for compatível para nós, mesmo fazendo diferente.

Como tal, os pais dão a vida, os recursos e as condições para que um filho ou uma filha vingue e sobreviva, mas por tê-lo feito, não devem exigir que o filho ou a filha deem a vida de volta ao terem de corresponder, pois é uma dívida demasiado grande e que jamais pode ser paga. A vida não deve ser paga com lealdade, mas com mais vida, que deve ser transmitida para frente, para o futuro, para novos projetos. Vida que o filho ou a filha possa dar de volta ao mundo no seguimento da sua existência. Como tal, os pais dão, e os filhos tomam. Esses filhos, irão dar ao mundo, aos seus próprios filhos, aos seus projetos profissionais, humanitários ou outros, e não de volta para os pais. Esse é o movimento que faz com que a vida se multiplique e se expanda, e não o contrário.

O objetivo é sentir, o propósito é viver

Vejo tantas pessoas angustiadas por acharem que não sabem qual é o seu propósito e missão cá na terra, que, por causa disso, se julgam incompetentes, ou não merecedoras de sucesso, e que vivem vidas sem significado ou ânimo (paixão e entusiasmo). Como se a falta dessa informação fosse lesiva. E pensando bem até é. Quando vivemos viciados ou obcecados com uma ideia, com uma falta ou carência, deixamos de ver tudo o resto. Há uma cegueira para outros espetros da realidade e para outros potenciais que existem.

As questões existenciais fazem parte da nossa vida. Talvez nem todas as pessoas se questionem com a mesma intensidade ou profundidade, mas quem o faz, passa muitas vezes por crises existenciais por não ter resposta às suas perguntas, como se isso fosse fundamental para avançar. Não é. O propósito descobre-se descobrindo-se, ou seja – vivendo. O propósito da vida é viver. Mais do que isso, o propósito de estarmos cá é sentir. Sentir tudo o que há para sentir. Através do sentir nós somos guiados para o que gostamos e para o que não gostamos. Para o que nos faz bem e para o que nos faz mal, para o que queremos e para o que não queremos.

Sentir, o objetivo é sentir. É despertar para essa maravilhosa realidade que estamos cá para viver, para experienciar a matéria, para encontrarmos os nossos gostos, dons e interesses. A pergunta deve ser seguida de ação: “O que estou cá a fazer, qual é o propósito de viver?”, é viver, pois está claro, e descobrir o que nos dá prazer viver. E é nessa busca que nos devemos focar, perguntando-nos: “Qual é o trabalho que me daria mais satisfação?”, “Que tipo de relações quero ter na minha vida?”, “Com que atividades quero ocupar o meu tempo livre?”, “O que posso fazer para ter mais liberdade/prazer/satisfação?”. E a seguir a fazer as questões certas, procurar isso mesmo, procurar experienciar e experimentar, mudar, testar hipóteses, ver o que lhe agrada e que não agrada.

Então, mais do que se ficar pela questão “Qual é o meu propósito”, é ir em busca dele, e é nessa busca que o vai encontrando, a cada momento. O propósito é estar bem consigo mesmo/a e fazer coisas que gosta. Simples assim. Mas a simplicidade requer perícia, requer apreciar, requer ficar no que é e ficar até no vazio de não saber mais e não ter respostas para tudo. E nesse desconhecido vamos vivendo e aceitando o que é possível saber, fazer e sentir a cada momento.

O que é que os adolescentes precisam afinal?

Um dia destes uma mãe perguntava-me: “Mas afinal o que é que os adolescentes precisam?!”, referindo-se à depressão na adolescência e às dificuldades emocionais que os adolescentes experienciam nesta fase, onde se incluem também, para além da depressão, os ataques de pânico, ideação suicida, automutilação e problemas de autoestima. Estes serão os temas mais comuns a encontrar num adolescente em crise, onde se podem incluir as perturbações do comportamento alimentar também, como a anorexia, bulimia e a compulsão alimentar.

O que esta mãe queria dizer com esta pergunta tinha a ver com uma incompreensão dos problemas emocionais dos adolescentes, considerando que eles têm tudo o que a sua geração não teve, nomeadamente em termos de afeto, carinho, condições materiais e económicas, acesso a educação, tecnologia, atividades diversificadas e uma cultura de maior liberdade de expressão, bem como acesso a apoio psicológico e terapêutico de todas as formas e feitios, e mais oportunidades do que alguma vez houve a todos os níveis.

Estamos a falar de uma mãe que está no ciclo de vida dos 60 anos. Geração que teve de lutar muito por oportunidades de estudo, formação e de trabalho, geração que viveu com algumas limitações mesmo a nível dos afetos, considerando que os pais de antigamente educavam pelo autoritarismo, uma educação mais funcional do que afetiva, e onde não havia um diálogo de igual para igual, e onde os filhos tinham de obedecer e ponto, tendo de iniciar a sua vida laboral na adolescência, devido aos fracos recursos económicos que essa família pudesse ter.

Era uma cultura de “come e cala”, não havia espaço para retrucar ou mostrar desagrado. Uma cultura de fazer o que tinha de ser feito, independentemente do que se sentia. Não havia espaço para a expressão emocional e a compreensão ou até da aceitação das questões emocionais das crianças e adolescentes. Obviamente que esta realidade não se pode generalizar a todas as famílias, mas a grande maioria pode estar contemplada nestas questões, com mais ou com menos recursos económicos. Era assim que funcionavam as coisas e ponto.

Atualmente, ainda há famílias que possam funcionar assim, é certo, mas nunca houve tanta informação, educação, literacia e consciência acerca das questões emocionais, que é o que se trata aqui, quando o tema é a parentalidade e adolescência. Ora respondendo à pergunta o que é que os adolescentes precisam afinal, é isso mesmo: compreensão e aceitação. Não lhes basta o apoio incondicional dos pais, terem todas as condições económicas ou materiais, ou tudo o que o adolescente possa precisar em termos materiais, como boas roupas, sapatos ou tecnologia, passeios, viagens e liberdade para estar com os amigos.

O adolescente quer ser visto, quer ser reconhecido nas suas questões emocionais como inseguranças, dúvidas, direito a ter crises de ansiedade, estar deprimido, revoltado, frustrado. Muitas vezes as repostas dos pais a estas questões é: “Isso não é assim tão grave para te sentires assim”, ou “Mas tu tens tudo, o que te falta? Eu na tua idade não tinha metade das coisas que tu tens e era feliz”, “Tens de deixar de dar importância a essas coisas…” (o que os outros dizem, deixar de falar com um/a amigo/a), etc. Tudo o que está implícito nestas afirmações é desvalorização do que o adolescente vive e sente: “Não tens o direito de te sentir assim/isso que aconteceu não é suficiente para te sentires assim/não devias de te sentir assim”.

Sim os tempos de antigamente eram desafiantes a um nível, hoje em dia são desafiantes a outros níveis. Ou seja, os desafios de hoje são outros. Nunca houve tanta perda de privacidade e de limites como hoje em dia devido às redes sociais. O fenómeno da comparação está mais grave do que nunca, devido ao efeito Instagram (vidas e corpos perfeitos). O bullying assumiu novos contornos devido à perseguição online. Os jogos online trazem novas dependências aos jovens. As dinâmicas juvenis são mais complexas do que nunca, como tal, as questões emocionais são mais complexas do que nunca também.

Os pais confundem o ter com o sentir. Não é porque se tem uma família amorosa, carinhosa, presente e preocupada que tudo basta, quando a vida do adolescente é cercada de todo um contexto e cultura de exigência por parte da família, por parte da comunidade escolar e por parte dos media. A exigência para estes adolescentes serem perfeitos é brutal. Os pais muitas vezes fazem isto e nem se apercebem: querem que os seus filhos sejam cópias exatas deles mesmos, com os mesmos valores, princípios e desejos, querendo que eles cumpram e correspondam às suas expectativas sempre, sem disso se aperceberem. O adolescente ressente-se disso e vai querer marcar a sua posição. Então os pais reclamam que eles são egoístas e ingratos, ou frios e insensíveis.

Os adolescentes criam a capa de frios e insensíveis para sobreviver a um mundo desafiante e exigente onde se lhes pede imensas coisas e eles, por terem tudo, têm de corresponder. É a função deles, segundo os pais: estudar, ter boas notas, ser filhos e alunos exemplares, nunca falharem, nunca errarem, fazerem sempre as escolhas certas (para os pais, ou adultos significativos). Percebem agora porque os adolescentes andam stressados, deprimidos e a pirar de vez em quando? É a função do adolescente viver, errar, fazer as escolhas erradas, aprender com elas, e ter pais que não os criticam quando eles fazem essas escolhas: mesmo que seja pintar o cabelo de verde, vestir-se com roupas rasgadas e namorar com o bad boy da escola, por exemplo.

Quanto mais critica ou desvaloriza as questões do adolescente, mais ele se fecha e deprime, sentindo-se incompreendido e rejeitado. Então, neste aspeto, cabe aos pais moderarem as suas expetativas, perceberem que têm à sua frente um ser completamente distinto, que não tem de corresponder ao que deseja para ele ou ela, ainda que isso seja, de facto, o melhor possível. E quem somos nós para decretar o que é certo ou errado para os outros, ainda que esse outro seja o seu filho/a? Isso só funciona quando o adolescente é bebé ou criança. A fase da adolescência é isso mesmo: uma negociação de limites e expetativas entre o adulto e o jovem que se começa a firmar e a individuar, ainda que seja de forma diferente do que os pais desejariam. Faz parte e é necessário.

Cabe ao pai e à mãe abandonarem a fantasia da idealização e poderem ver o seu filho ou a sua filha para além da lente de desejo narcísico de ter uma jovem cópia sua que repare os seus próprios erros e faça as escolhas que julga corretas. Cabe ao adolescente ser livre e tomar as suas próprias decisões, ser a sua própria pessoa e construir a sua própria vida ainda que em moldes diferentes do que a família idealiza. Chama-se a isso crescimento e evolução. Se assim não fosse, a mudança cultural e social não seria possível. O adolescente quer, portanto, ser a sua própria pessoa, explorando o mundo à sua volta da forma que for possível e desejável para si, com a menor crítica ou julgamento possível.

Não é o que todos queremos, no fundo? Aceitação.